Leonel Vicente
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Memória Virtual via e-mail



Memória (II)

Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos, quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objectos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhes entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda o não absorveu e sepultou. *

Jacques LeGoff (na sua obra “História e Memória”) propõe algumas fases na “história da memória”:

1. Memória oral
2. Memória oral em que a memória escrita assume uma função específica
3. Fase medieval de equilíbrio entre as duas fontes de memória
4. Fase moderna, em que a memória escrita assume papel decisivo
5. Fase da memória em expansão.

Nas sociedades sem escrita, a memória oral consubstanciava-se na preservação da informação por especialistas, os chamados “homens-memória”, verdadeiros guardiões da história dos grupos ou comunidades, assumindo papel fundamental na transmissão do saber. A memória transmitia-se por via da aprendizagem, não sendo uma reprodução exacta “palavra por palavra”, mas antes uma evocação mais ou menos difusa.

Com o advento da escrita, a memória colectiva viria a sofrer uma verdadeira revolução, com o aparecimento de novas possibilidades de conservação da informação: primeiro, sob a forma de inscrição (de que constituem exemplos, entre outros, os obeliscos e estelas); mais tarde, por via de documentos escritos, possibilitando perenizar a informação, superando barreiras de tempo e espaço.

Grandes civilizações de eras antigas como as da Mesopotâmia, do Egipto, da China ou da América Pré-Colombina, serviram-se da memória escrita como marca de progresso. Já na época da Grécia antiga, os “mnemon” (“memórias-vivas”), que asseguravam a conservação da memória do passado relativamente a decisões judiciais, acabariam por vir a transformar-se, com a evolução da memória escrita, em arquivistas.

Na Idade Média, o conceito de memória evolui, passando a estar primordialmente associado à difusão da doutrina cristã, com a memória dos livros sagrados, dos Santos, e dos obituários, evocando os nomes de benfeitores. Por outro lado, a escrita, conjugando a memória e a alegoria personificante da divindade, torna-se o veículo privilegiado da relação do crente com Deus. Nesta fase, a memória escrita desenvolve-se ainda em paralelo, ou de forma complementar, com a memória oral. Os manuscritos serviam então, também, para ser aprendidos de cor…

Bibliografia consultada

- “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007

- “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz

* Santo Agostinho, “Confissões” (tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina), Braga, Livraria Apostolado, 11ª edição, 1984

Memória (I)

Porque é frágil a memória dos homens e para que, com o tempo, não caiam no esquecimento os feitos dos mortais, nasceu o remédio da escrita para que, por meio dele, os factos passados se conservem como presentes para o futuro. *

O que é a memória?

As definições de memória falam-nos da função ou capacidade de captar, gravar/reter, armazenar/arquivar, classificar e, num segundo tempo, evocar/recuperar informação.

Em termos gerais, e de forma subjectiva, uma faculdade cognitiva de recordação ou lembrança.

Dizem-nos também que não existe uma única memória genérica, mas sim várias dimensões da memória, decorrendo de diferentes fontes / estímulos, desde os associativos, aos emocionais, passando pelos conceptuais.

E, noutro prisma, (i) Memória de procedimentos, entendida como a capacidade de reter e processar informações não verbalizadas, de que será um dos exemplos mais cabais “aprender a andar de bicicleta”; e (ii) Memória declarativa, associada à capacidade de verbalizar determinado facto, compreendendo vertentes diversas:

  • memória sensorial (tempo médio de percepção de um estímulo pelos nossos órgãos sensoriais, de 3 a 5 décimos de segundo) – visual ou auditiva (também passível de captação via outros sentidos);

  • memória de curto prazo, imediata, objecto de solicitação a todo o instante, permitindo reter – até durante um período de algumas dezenas de segundos – até cerca de 7 elementos distintos; e

  • memória de longo prazo, de cariz permanente (virtualmente, durante toda a vida) – contrariamente às anteriores, em que a informação percepcionada é rapidamente esquecida ou apagada –, com uma considerável capacidade de retenção ou armazenamento mental, a qual é depositária das nossas lembranças e aprendizagem, permitindo tirar proveito das experiências vivenciadas.

  • A memória, assim considerada como base do conhecimento, necessita portanto ser trabalhada / estimulada, facultando também a partilha entre indivíduos com essas vivências comuns, permitindo dessa forma a transmissão de experiências e valores entre gerações.

    * Arenga de 1260 (Viseu, Arquivo do Museu de Grão Vasco, PERG / 08)

    Memória da escrita

    E agora, como “descalço eu esta bota”?

    Eu que gosto de escrever sobre temas que me interessam, sem que, muitas vezes, tenham particular interesse para outros… Num rápido flashback, sobre o que tenho escrito ultimamente? Eleições nos Estados Unidos; recordações dos 10 anos da EXPO’98; os decisivos jogos de futebol de final de época… enfim, nada realmente palpitante; nada mais que um mero fixar de memória(s), qual arquivista ou coleccionador.

    E que, tendencialmente, me vou esquivando à análise da espuma dos dias, numa agenda mediática que vai desde a lei anti-tabágica aos preços dos combustíveis, passando pelas eleições partidárias; sem, todavia, conseguir evitar uma colherada na questão do acordo ortográfico… por isso mesmo, por ter também a ver com a “Memória”, no caso, da escrita.

    Memória que começara por ser oral – com “homens-memória” como guardiões da história –, tendo os primeiros meios gráficos surgido há cerca de vinte mil anos, datando as mais antigas formas de escrita a cerca de seis mil anos, no que constituiria uma nova forma de preservação dessa memória e de comunicação, transpondo as barreiras do tempo e do espaço.

    Somos ainda tributários dos escribas ou copistas que, no seu scriptorium, ajudaram a perpetuar a memória (da) escrita, escrevendo, primeiro sobre rolos de papiro, só mais tarde em pergaminho, precursores do que viria, com o advento dos caracteres móveis e da imprensa (apenas cerca de 1450), a tornar-se num meio de expressão de difusão universal.

    E, assim, aqui aproveito também a oportunidade que me foi proporcionada para, publicamente, prestar uma singela homenagem aos que, ainda nos dias de hoje, continuam a dedicar-se ao estudo dos materiais de escrita, das formas gráficas, à leitura dos documentos e livros, assim como dos mais antigos testemunhos do português enquanto língua escrita, a partir da segunda metade do século XII.

    Numa era em que a palavra escrita parece viver momentos de crise, chegando mesmo a projectar-se o hipotético eclipse de livros e jornais, com o hipertexto (forma de escrita não sequencial já antecipada por Leonardo Da Vinci nas múltiplas anotações aos seus textos) virtual a conquistar cada vez mais preponderância, são igualmente de louvar iniciativas como a da UNESCO que, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, criou o Programa “Memória do Mundo”, propondo que se intensifiquem os esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos.

    Também a preservação da memória virtual – a Internet como “memória colectiva da Humanidade” – não poderá deixar de constituir igualmente uma outra preocupação, nomeadamente no que respeita a questões como a longevidade dos suportes ou as restrições de acesso.

    E, com dedicatória, assim completo o círculo; para que serve um blogue se nele não podemos escrever o que queremos?

    Texto publicado originalmente no Corta-Fitas, em resposta ao amável convite que me foi dirigido por Pedro Correia, a quem reitero o meu agradecimento.

    Memória

    A 28 de Junho o Memória Virtual completa 5 anos.
    Nos próximos dias - até lá -, retomando a sua matriz, o tema em foco será a Memória, em algumas das suas múltiplas vertentes.

    (Imagens via: 1 / 2 / 3)