Leonel Vicente
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Memória Virtual via e-mail

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MEMÓRIA

Porque é frágil a memória dos homens e para que, com o tempo, não caiam no esquecimento os feitos dos mortais, nasceu o remédio da escrita para que, por meio dele, os factos passados se conservem como presentes para o futuro. *

* Arenga de 1260 (Viseu, Arquivo do Museu de Grão Vasco, PERG / 08)

Memória (X)

A Memória da Internet

As funcionalidades da informática permitem-nos “agarrar” o passado, “conservá-lo” e, mais que isso, sobretudo, fazê-lo “reviver” sempre que quisermos; trata-se de uma memória virtual, mas uma memória virtual viva.

Já em 2003, Pacheco Pereira lançava o alerta, em artigo no Público (de dia 17 de Julho) sobre o “Arquivo da Internet”: «Uma parte muito significativa do retrato do Portugal contemporâneo perde-se todos os dias sem apelo nem agravo: a Internet em português».

E, mais adiante, especificamente a propósito da blogosfera, então numa fase de crescimento fervilhante, «Veja-se o caso da blogosfera. A blogosfera devia ter um “depósito obrigatório” imediato. Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos “sui generis”».

Para concluir com um grito lancinante: «Quem guarda os CD-ROM, quem guarda os discos alternativos, quem guarda os fanzines, quem guarda os panfletos políticos e a parafernália dos objectos de campanha, quem guarda os arquivos digitais, quem guarda a Internet portuguesa? Ninguém, diz o romeiro

E, no entanto, elas existem, as memórias da Internet… em arquivo!

Por exemplo, a Rede da Memória Virtual Brasileira, um projecto com a ambição de automatizar e disponibilizar no ciberespaço os acervos de todas as instituições brasileiras que disponham de um património visual ou textual, constituindo-se numa verdadeira memória digital, de acesso alargado.

Ou o arquivo da “Wayback Machine”, igualmente com um mirror na “nova Biblioteca de Alexandria”. Ou, ainda, noutra vertente, mais de 200 anos de história, tal qual ela foi escrita no momento em que ocorreu, com a disponibilização online dos arquivos – desde a sua fundação em 1785 – do jornal britânico The Times.

Também João Canavilhas se dedicou a estudar “A Internet como Memória“, que classifica mesmo como possível «memória colectiva da Humanidade», apontando o exemplo de uma vertente específica, o projecto MyLifeBits.

Aludindo que a Internet «veio facilitar o acesso à informação ao rebater em simultâneo as barreiras do espaço e do tempo», são suscitadas neste estudo questões relacionadas com a (limitada) longevidade dos suportes, restrições de acesso, as limitações das ferramentas de pesquisa, ou a questão da usabilidade das bases de dados.

O autor, constatando que «a internet surge, naturalmente, como uma extensão da memória», sublinha que «Um dos grandes desafios do futuro é compreender a internet e a forma como se pode tirar partido das suas características de uma forma eficiente», concluindo que o «desafio que se coloca à internet é aperfeiçoar as suas capacidades como memória».

Memória (IX)

Conhecimento enciclopédico – Wikipedia

Das origens de “L’Encyclopédie” até ao surgimento da Wikipedia – «a enciclopédia livre que todos podem editar» – decorreram exactamente 250 anos, mas a motivação continua a ser a mesma, a de reunião e acumulação de uma base de conhecimento universal, concentrada num meio virtualmente à disposição de todos, de acesso gratuito.

A Wikipedia, uma enciclopédia online, foi criada em Janeiro de 2001, como um projecto paralelo à Nupedia, enciclopédia com filosofia análoga, iniciada em 2000, e que – devido ao complexo processo de validação da fiabilidade e qualidade das suas entradas – acabaria por ter o seu fim em 2003.

À semelhança da Enciclopédia idealizada por Diderot e d’Alembert, a Wikipedia é um empreendimento colectivo – necessariamente, em muito maior escala –, colaborativo (recorrendo à tecnologia wiki, aplicação de gestão de conteúdos adaptada a portais colaborativos) e voluntário, operando em rede, em que qualquer pessoa pode adicionar ou alterar artigos, sendo também os seus conteúdos de acesso livre.

A versão original, em inglês, compreende mais de 1 500 000 artigos, dispondo a versão em português de cerca de 200 000 entradas (8ª maior versão), números que crescem diariamente. Este projecto abrange já cerca de 250 idiomas, com um número global de artigos (em todos os idiomas) que ultrapassou – há precisamente três meses – os 10 000 000.

Constitui-se assim no mais completo arquivo de informação estruturada alguma vez elaborado pela humanidade – tendo por base a acção colectiva e a interacção online –, de actualização permanente e praticamente instantânea, elevando à máxima potência imaginável o conceito de “arquivo da memória”.

Em 2005, o “Seigenthaler incident” suscitaria – com particular acuidade – a questão do grau de precisão, fiabilidade e credibilidade da Wikipedia; não obstante, num estudo da Nature, tendo por termo de comparação a Encyclopedia Britannica, a enciclopédia online, não obstante o seu carácter de “obra a milhares de mãos”, não se sairia mal.

Inquestionável será a apreciação de que a sua qualidade é, necessariamente, bastante desigual, oscilando entre artigos de grande rigor e outras entradas com numerosos erros ou falhas, o que impossibilita a sua aceitação generalizada nos meios académico e científico.

Os seus críticos, de que é exemplo José Pacheco Pereira, autor que tem publicado reflexões sobre o tema – que, não obstante reconhecer tratar-se de uma grande realização da Rede, refere não existir forma de «escapar ao problema da validação científica no julgamento da Wikipedia» –, apontam que a forma de desenvolvimento deste projecto, sem revisão e sem edição, acaba por se traduzir num produto final repleto de «erros, incorrecções, artigos doutrinários passando por entradas enciclopédicas, que a tornam imprestável para qualquer trabalho sério», tendendo a «tornar-se o maior problema da pesquisa em linha para trabalhos escolares, académicos e jornalísticos».

Sendo inegáveis as suas virtualidades, tal como noutras áreas, decisiva será a obrigatória confrontação e cruzamento de fontes, devendo recorrer-se à Wikipedia com o necessário grau de cepticismo e reserva, e, preferencialmente, como forma de obter um primeiro e rápido (instantâneo) “aperçu” sobre o tema em causa – lançando pistas, apontando caminhos para desenvolvimento das pesquisas -, o qual carecerá imperativamente, para efeitos de maior rigor, de ser complementado pela consulta de fontes cientificamente idóneas.

Para saber mais, pode consultar as seguintes referências, também à guiza de pistas para início de exploração:

- “The Early History of Nupedia and Wikipedia: A Memoir
- “Wikipedia: 10 milhões de artigos
- “A política portuguesa na Wikipedia
- “Para o debate sobre a Wikipedia
- “O problema da Wikipedia: os erros do artigo “Partido Comunista Português”

Memória (VIII)

[…] afin que les travaux des siècles passés n’aient pas été inutiles pour les siècles qui succèderont; que nos neveux devenant plus instruits, deviennent en même temps plus vertueux et plus heureux; et que nous ne mourions pas sans avoir bien mérité du genre humain *

Conhecimento enciclopédico – L’Encyclopédie

Etimologicamente a palavra Enciclopédia significa encadeamento de conhecimentos – os quais têm por base a memória –, procurando concretizar a quimera de reunir e concentrar num único documento todo a sabedoria (dispersa) da humanidade, em múltiplas vertentes da cultura, artes e ciência, com o objectivo de a transmitir « aux hommes qui viendront après nous», às gerações vindouras.

No final do século XVIII, o movimento do Iluminismo, advogando uma nova concepção de sociedade, baseada na democracia e na liberdade de pensar e de questionar, com forte apetência pelo saber, visando favorecer a difusão dessa concepção, procurou levar o conhecimento até junto de todos, numa época que constituiu a “Idade de ouro” dos Dicionários.

Em 1751, surgiam os dois primeiros tomos de L’Encyclopédie ou “Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers”, o maior empreendimento editorial, filosófico e científico até à época, quer pelo seu volume, quer pelos recursos empregues. As suas origens remontam a 1745, decorrendo da iniciativa de tradução para francês do Dicionário Universal inglês (“Cyclopaedia” ou “Universal dictionary of arts and sciences”, de Ephraim Chambers, publicado em Londres a partir de 1728, objecto de sucessivas reedições), trabalho encarregue, em 1747, a Denis Diderot (Academia das Ciências e Belas Artes) e a Jean le Rond d’Alembert (Academia Real das Ciências).

A obra, prevendo compreender inicialmente 10 volumes, atingiria, no seu termo, um total de 28 volumes – 17 de texto (com mais de 70 000 artigos) e 11 de imagens (quase 3 000 ilustrações) – ao longo de mais de 25 anos de trabalho, constituindo-se como uma recolha crítica dos saberes, da sua elaboração e da sua transmissão, e, sobretudo crítica dos dogmas, vindo consequentemente a ter fortes repercussões sociais, que levariam inclusivamente à sua vigilância, censura e, mesmo, à sua interdição em 1752. Os 10 últimos volumes de texto apenas seriam publicados em 1765, enquanto que os volumes de imagens seriam finalizados em 1772.

Como marcas distintivas em relação aos anteriores Dicionários Universais, destacavam-se:

  • o facto de se tratar de um projecto colectivo (elaborada por uma “sociedade de gente de letras”), envolvendo mais de 150 colaboradores, recorrendo a especialistas em diversas matérias (e não apenas a compilações do passado): Diderot assegurava a parte de história da filosofia; d’Alembert ocupou-se da componente da Matemática e Física, Buffon das Ciências da natureza, Daubenton da História Natural, Barthez, Bordeau e Tronchin da Medicina, Quesnay e Turgor da Economia, Jean-Jacques Rousseau da Música e da Teoria Política, para além de outros nomes famosos como os de Montesquieu e Voltaire

  • beneficiava já de um sistema de reencaminhamento entre artigos, antecipando a interactividade (hoje potenciada com o uso do hipertexto), organizados em três grandes categorias ou ramos do conhecimento – História/Memória, Filosofia/Razão e Poesia/Imaginação – permitindo uma legibilidade transversal

  • integrava também as “artes mecânicas” no círculo do conhecimento

  • compreendia 11 volumes de imagens, entendidos como uma forma de enriquecimento dos conteúdos textuais.

O projecto ARTFL da Universidade de Chicago desenvolveu na Internet uma versão da primeira edição de L’Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers, de Diderot e d’Alembert.

* Denis Diderot, “L’Encyclopédie”

Memória (VII)

Depósitos da memória

O papel fundamental desempenhado pela escrita na conservação da memória era já claramente percebido na época medieval, o que era expresso de forma eloquente nos preâmbulos (arengas) com que se iniciavam muitos dos documentos, nos quais se louvava a escrita como remédio para obviar à fragilidade da memória humana (vidé artigos anteriores desta série).

Na actualidade, o quadro legislativo português, datado de 2001, inclui entre o património a proteger “todos os bens (…) portadores de interesse cultural relevante” e que reflectem “valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade”.

No ano de 1992, a UNESCO, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, decidira já criar o Programa “Memória do Mundo”, propondo a intensificação dos esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos, de que a face mais publicamente visível é o “Memory of the World Register” (lista de património documental de reconhecido significado mundial), criado em 1995.

Um reflexo do reconhecimento de que as fontes escritas constituem um património a preservar, valorizar e explorar, considerado como “mirror of the world and its memory”… mas uma memória frágil, da qual, a cada dia, partes insubstituíveis desaparecem para sempre.

O Programa “Memória do Mundo” tem como valores fundamentais a noção de que o património documental é pertença da humanidade (de todos nós!), e, como tal, deverá ser integralmente preservado e protegido… para que seja acessível de forma permanente e universal.

Para além de ter começado por estabelecer uma relação de bibliotecas e arquivos em risco, e promovido o uso das novas tecnologias para a preservação e conservação de documentos, encorajando a produção de cópias e catálogos digitalizados, disponibilizados para consulta na Internet, assim como a publicação e distribuição de livros, CD’s, DVD’s e outros produtos, possibilitando a mais vasta divulgação, foram admitidas, até à data, cerca de 160 inscrições no Registo “Memory of the World”.

Em 2007, Portugal viu serem inscritos neste registo, como bens do património documental, o Tratado de Tordesilhas (datado de 1494, pelo qual Portugal e Espanha partilharam o mundo a descobrir – na sequência de candidatura conjunta dos dois países, os quais conservam, cada qual, o seu original do documento, escrito sobre pergaminho), tal como o “Corpo Cronológico” (colecção que reúne mais de 80 mil documentos em papel e pergaminho, datados desde 1161, mas principalmente dos séculos XV e XVI, na Torre do Tombo, em Lisboa), juntando-se à Carta de Pêro Vaz de Caminha, escrita já em papel, dirigida em 1500 ao Rei D. Manuel I, dando-lhe conta do achamento do Brasil.

A colecção “Corpo Cronológico” foi formada sob a iniciativa de Manuel da Maia, guarda-mor da Torre do Tombo – que recebeu a sua denominação no século XVIII, depois do Terramoto de 1755, que fez ruir a torre do castelo de S. Jorge, em Lisboa, onde se conservava o arquivo régio – durante o período de 1756 a 1764, tendo organizado a documentação com base em critérios cronológicos, do que decorre a sua designação.

A documentação que o integra contém fontes da maior relevância para o conhecimento da História da Europa, da África, da Ásia e da América do Sul, particularmente do Brasil: tratados de paz entre Portugal e outros países, doações régias, documentos sobre a administração do Reino e do Ultramar, correspondência sobre acontecimentos e política ultramarina (ocorrências em todas as possessões atlânticas e índicas), correspondência diplomática europeia (sobre assuntos da Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Itália, Europa Central, Europa Oriental e do Império Turco) e ultramarina, para além de alguns diplomas pontifícios.

No âmbito do Projecto “TT Online” foram digitalizados e disponibilizados online cerca de 45 300 documentos, correspondentes a mais de 300 000 imagens, em regime de plena acessibilidade.

Portugal conserva um elevado número de outros documentos que urge preservar – não apenas na Torre do Tombo, mas dispersos por todo o país -, em alguns casos esperando ainda a constituição de arquivos, guardados por ora sem cuidados e, em muitos casos, sem que se saiba sequer qual o material existente. Um desafio que requer uma resposta consentânea com a sua relevância, enquanto parte essencial da memória colectiva portuguesa.

Memória (VI)

É um costume reconhecido que, para que as coisas e os feitos se não percam no esquecimento, sejam confiados à fé das escrituras, porque tudo o que piedosamente for feito pelos bons, a não ser que seja passado a escrito, poderá vir a ser destruído pelos vindouros, quando não a cupidez os faça rebeldes às obras de caridade dos padres precedentes *

Memória do Português escrito

A escrita em português tem os seus antecedentes em textos latino-portugueses, prévios inclusivamente à própria fundação da nacionalidade, provenientes do mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto, datados de 1101 e 1125.

As manifestações iniciais do português escrito serão observáveis apenas a partir da segunda metade do século XII, constituindo-se porventura como textos mais antigos: a “Notícia de Fiadores de Paio Soares Romeu” (datado de 1175); e a “anotação de despesas de Pedro Parada” e o “Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais” – estes não datados, mas presumivelmente escritos também em data aproximada.

Porém, esta classificação não está isenta de discórdia, em particular quanto ao atributo de “escritos em português” de certos textos, havendo quem advogue que o texto mais antigo que poderá merecer tal qualificativo dataria apenas de 1214 (“Notícia de Torto”) – opinião, ainda assim, não consensual, dado poder também considerar-se um documento “híbrido latino-português”.

Por outro lado, também o mais antigo documento régio escrito em português data de 1214, correspondendo ao testamento de D. Afonso II.

No período de 80 anos que decorre entre 1175 e 1255 (data dos mais antigos documentos em português produzidos na chancelaria do rei D. Afonso III), foram identificados cerca de 30 textos escritos em português – “produção primitiva”, constituída por documentos particulares, de carácter notarial –, levantando-se, também neste caso, alguma controvérsia, por um lado quanto ao qualificativo sobre a língua de escrita, por outro lado, quanto à (não) datação de alguns desses documentos.

Esses documentos correspondiam essencialmente a “notícias” (respeitando efectivamente a listas ou inventários), género diplomático que tinha por finalidade o registo de determinados factos, em ordem à preservação da sua memória.

Apenas o rei D. Dinis, a partir de 1279, determinaria o uso generalizado do português na chancelaria régia, de que decorreria um acréscimo relevante da produção documental em português no último decénio do século XIII, que só na centúria seguinte viria a assumir primazia face ao latim.

Não obstante, pode afirmar-se com elevado grau de certeza que, ainda antes do termo do século XII, o português escrito não era exclusivo da produção notarial, sendo já utilizado também a nível literário (arte poética dos trovadores, em folhas soltas, depois reunidas em cancioneiros), a qual se alargaria à prosa a partir de meados do século XIII, surgindo D. Afonso III como introdutor em Portugal do romance de cavalaria.

Numa época em que o digital ganha terreno ao texto impresso em papel, ainda uma pequena curiosidade a propósito do mais antigo texto conhecido escrito em papel em Portugal, datado de 1268, conforme documento em arquivo na Torre do Tombo, em Lisboa.

(Para saber mais, pode consultar o texto de base bibliográfica a este artigo: “O primeiro século do português escrito“, Ana Maria Martins)

* Soeiro, presbítero, Alcobaça, 1190 – Instituto dos Arquivos Nacionais – Torre do Tombo – Mosteiro de Alcobaça, 1ª incorp., Documentos Particulares, M.º 2, Doc. 12 – citado por Saul António Gomes, “Entre memória e história: os primeiros tempos da Abadia de Santa Maria de Alcobaça (1152-1215)”

Memória (V)

A escrita é guardiã fiel da memória. Deste modo ela torna presentes as coisas antigas, atesta as novas e, comprovando-as, delas dá testemunho a fim de que, no decurso dos tempos futuros, não caiam no esquecimento *

Com o final do Império romano do ocidente (final do século V d.C.), surge uma nova instituição, a Ordem monástica, assumindo o papel primordial a nível de transmissão da cultura, concentrando as tarefas de ensino e de escrita. Durante a Idade Média, os monges copistas, trabalhando no scriptorium de cada mosteiro e abadia, transcreviam ou copiavam textos, manuscritos, inicialmente sobre rolos de papiro e, mais tarde, em pergaminho, possibilitando o surgimento dos primeiros livros (“codex”).

Os rolos de papiro apresentavam vários inconvenientes, quer em termos de custo, quer pela sua fragilidade, assim como pelo facto de apenas serem utilizáveis de um dos lados, sendo, por outro lado, de difícil consulta e manuseamento.

Graças à sua resistência e grande capacidade de se manter inalterado ao longo de séculos, o pergaminho – feito a partir da pele de animais – constituir-se-ia como suporte básico de escrita durante toda a Idade Média, quer a nível de livros, quer de documentos. Tornaram-se então famosos os palimpsestos – etimologicamente, derivando das palavras gregas palin (“outra vez”) e psan (“raspar”) –, traduzindo que o pergaminho fora raspado (para apagar o texto inicial) e reescrito.

Sabeis como procede o copista. Primeiro, começa por limpar a gordura do pergaminho com um raspador para retirar as maiores impurezas; depois, com a pedra-pomes, faz desaparecer completamente os pêlos e os ligamentos” (Hildeberto de Lavardin, início do século XII, citado por PERNOUD, Régine – La plume et le parchemin, Paris, Denoel, 1983, p. 76).

A pele dos animais (principalmente ovinos e caprinos) recebia ainda um banho de cal, sendo depois esticada em bastidores, onde, sob tensão, secava, após o que podia ser ainda polvilhada com cal, para que a tinta aderisse melhor, e, também, polida com pedra-pomes, para amaciar a sua superfície.

Só a partir do século XV o pergaminho perderia a primazia, perante a crescente utilização do papel, criado na China há cerca de 2000 anos, introduzido no Ocidente pelos árabes apenas cerca de 1150. Cânhamo, capim e palha foram também materiais para escrita utilizados pela humanidade.

Até ao século XIX produzia-se papel com base em trapos velhos (farrapos) lavados, deixados a apodrecer durante semanas, e depois desfeitos. A polpa assim obtida era então mergulhada em água e moldada em formas, sendo ainda prensada, banhada em cola e estendida para secagem.

O papel produzido a partir da pasta de celulose apenas surgiria em meados desse século, passando então a madeira a ser a principal matéria-prima para fabrico de papel. Apenas a partir da década de 60 do século XX o eucalipto se tornou amplamente utilizado como principal fonte de fibra.

Eram diversos os instrumentos utilizados na escrita pelos escribas, desde o esquadro, régua, compasso e estilete (para marcação das margens e das linhas das folhas), passando pelos primordiais cálamo (caneta feita de cana fina e oca, utilizada desde a Antiguidade) e penas de ave, principalmente de ganso (usadas a partir do século IV d.C.) – que ditaria a sua lei até à Idade Contemporânea, com a invenção dos aparos de metal.

As tintas utilizadas, essencialmente metalo-gálicas – compostas por sal metálico (sulfato de cobre ou de ferro) e ácido gálico, de nozes de galha (excrecências formadas nas folhas ou ramos de carvalho) –, podiam ser de “cor” (destinadas à decoração dos manuscritos e às letras iniciais – obtidas a partir da adição de corantes), ou “negras” (efectivamente, com uma tonalidade variando entre o castanho amarelado e o preto, para escrita dos textos, quer em livros, quer em documentos). Nas iluminuras era também usada a folha de ouro, aplicada com minúcia sobre o pergaminho.

Bibliografia consultada

- “Monumentos de Escrita – 400 anos da história da Sé e da cidade de Viseu (1230 – 1639)”, Roteiro da Exposição, Maria do Rosário Barbosa Morujão e Anísio Miguel de Sousa Saraiva, pp. 17 a 19

- “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual“, Rita de C. R. de Queiroz)

* Fr. Gonçalo, “Uisensis dictus episcopus”, Alcobaça, 1176 – Instituto dos Arquivos Nacionais – Torre do Tombo – Mosteiro de Alcobaça, 1ª incorp., Documentos Particulares, M.º 1, Doc. 13

Memória (IV)

Sempre que os homens sentiram a necessidade de conservar os instantes que a história comporta, a escrita se fez lei. Em todos os tempos, o homem que soube escrever foi rei *

Há mais de dois milhões de anos que a humanidade começou a comunicar por via da articulação de sons.

Não obstante o homem exprimir o seu pensamento e procurar comunicar através de meios gráficos há cerca de 20 000 anos (desde a arte rupestre, com inscrições e pinturas cavernas, a partir do Paleolítico superior), apenas cerca de 30 a 40 séculos a.C. seria criado o primeiro código de escrita, inventado pelos Sumérios, permitindo dar os primeiros passos na fixação da linguagem oral de uma forma perene, ao mesmo tempo que vinha permitir a comunicação através do tempo e do espaço.

Desde as origens da escrita – cuja difusão, com início nas civilizações da Mesopotâmia, Egipto, China antiga e América pré-colombina, está primordialmente associada à evolução da memória –, foram utilizados diversos suportes, como placas de argila, pedra e madeira, rolos de papiro, pergaminho, antes do papel, que só chegaria à Europa cerca de 1150 e apenas a partir do século XV adquiriria a primazia.

Cerca de meados do quarto milénio a.C., os Sumérios, ocupando a Mesopotâmia – geralmente considerada a civilização mais antiga da humanidade, constituindo-se, durante cerca de 1500 anos, no grupo cultural dominante no Médio Oriente – introduziram a escrita cuneiforme (caracteres em forma de “cunha”, inscritos em tábuas de argila por via de estiletes, inicialmente com um sistema pictográfico, em que imagens ou objectos expressavam ideias), o que estaria associado a uma produção literária bastante evoluída, a par de um desenvolvido sistema jurídico, culminando no Código de Hamurabi, o mais remoto de que há conhecimento (cerca de 1800 a.C.).

Juntamente com a escrita cuneiforme, a escrita hieroglífica egípcia tornar-se-ia num dos mais importantes contributos para o desenvolvimento dos sistemas de escrita, na transição para o uso de sinais de escrita com valor fonético, surgindo a escrita semítica como o protótipo da escrita alfabética (formada por 22 símbolos).

O alfabeto fenício, adoptado pelos gregos cerca de 900 a.C., sendo objecto de adaptação até ao século IV a.C. (originando o alfabeto jónico, com 24 letras), tornar-se-ia na origem directa de todas as escritas alfabéticas ocidentais.

O alfabeto latino, derivado do grego, compreendia inicialmente apenas 16 letras, só posteriormente tendo sido introduzidas as letras g, h, j, k, q, v, x e y. O latim, difundido no mundo ocidental pelos romanos, originaria diversas línguas românicas, que começaram a ser traduzidas de forma escrita a partir do século IX d.C. No caso do português, apenas seria observável sob a forma escrita a partir da segunda metade do século XII.

(Para saber mais, pode consultar o texto de base bibliográfica a este artigo: “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual“, Rita de C. R. de Queiroz)

* Georges Jean, “La escritura: memoria de la humanidad”, tradução Enrique Sánchez Hormigo, Ediciones B, S. A., Barcelona, 1998

Memória (III)

A memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações *

Com Gutenberg e a imprensa (cerca de 1450), a escrita ascende a uma outra plataforma, amplificando a memória colectiva a tal ponto que já não é passível de ser fixada (decorada) na íntegra, no que se traduz numa nova revolução, iniciando o declínio da “arte da memória”, tal qual valorizada pela escolástica.

O texto escrito torna-se hegemónico a nível do movimento científico, dando origem, a partir sensivelmente do século XVIII, à “sociedade leitora”, a par do surgimento do conhecimento enciclopédico, procurando concretizar a quimera de concentrar numa única obra todo o conhecimento da humanidade, em múltiplas artes da cultura, artes e ciência.

Começam, também no século XVIII, a ser criados os primeiros “depósitos da memória”, que assim começa a materializar-se, nomeadamente com os arquivos centrais como a Casa de Sabóia em Turim ou em São Petersburgo. Com a Revolução Francesa surgem os Arquivos Nacionais, em 1790; em Inglaterra, o Public Record Office nasce, em Londres, em 1838, passando a estar disponíveis para consulta pública documentos constitutivos da memória nacional.

Em paralelo, são inaugurados os primeiros museus públicos: o Louvre, cerca de 1750, o Pio-Clementino (Vaticano – cerca de 1770), o Prado (Madrid – 1785) ou o de Berlim (1830).

Também por esta época (década de 1830), dá-se outra revolução na memória “social”, com o aparecimento da fotografia (introduzida por Louis Daguerre e Joseph Nicéphore Niepce), possibilitando, pela primeira vez, “conservar o tempo” em imagens…

Antecedendo a derradeira fractura revolucionária, com origem a partir de 1950, com o início da memória electrónica, precursora da sociedade da informação ou da actual sociedade em rede, desde 1993, com a abertura da Internet ao domínio público, acelerando bruscamente o fluxo de informação e a socialização.

Bibliografia consultada

- “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007

- “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz

* Jorge Luis Borges

Memória (II)

Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos, quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objectos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhes entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda o não absorveu e sepultou. *

Jacques LeGoff (na sua obra “História e Memória”) propõe algumas fases na “história da memória”:

1. Memória oral
2. Memória oral em que a memória escrita assume uma função específica
3. Fase medieval de equilíbrio entre as duas fontes de memória
4. Fase moderna, em que a memória escrita assume papel decisivo
5. Fase da memória em expansão.

Nas sociedades sem escrita, a memória oral consubstanciava-se na preservação da informação por especialistas, os chamados “homens-memória”, verdadeiros guardiões da história dos grupos ou comunidades, assumindo papel fundamental na transmissão do saber. A memória transmitia-se por via da aprendizagem, não sendo uma reprodução exacta “palavra por palavra”, mas antes uma evocação mais ou menos difusa.

Com o advento da escrita, a memória colectiva viria a sofrer uma verdadeira revolução, com o aparecimento de novas possibilidades de conservação da informação: primeiro, sob a forma de inscrição (de que constituem exemplos, entre outros, os obeliscos e estelas); mais tarde, por via de documentos escritos, possibilitando perenizar a informação, superando barreiras de tempo e espaço.

Grandes civilizações de eras antigas como as da Mesopotâmia, do Egipto, da China ou da América Pré-Colombina, serviram-se da memória escrita como marca de progresso. Já na época da Grécia antiga, os “mnemon” (“memórias-vivas”), que asseguravam a conservação da memória do passado relativamente a decisões judiciais, acabariam por vir a transformar-se, com a evolução da memória escrita, em arquivistas.

Na Idade Média, o conceito de memória evolui, passando a estar primordialmente associado à difusão da doutrina cristã, com a memória dos livros sagrados, dos Santos, e dos obituários, evocando os nomes de benfeitores. Por outro lado, a escrita, conjugando a memória e a alegoria personificante da divindade, torna-se o veículo privilegiado da relação do crente com Deus. Nesta fase, a memória escrita desenvolve-se ainda em paralelo, ou de forma complementar, com a memória oral. Os manuscritos serviam então, também, para ser aprendidos de cor…

Bibliografia consultada

- “Memória e sociedade contemporânea: Apontando tendências”, Ângela Maria Barreto, Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v.12, n.2, p. 161-176, jul./dez., 2007

- “A Informação escrita: do manuscrito ao texto virtual”, Rita de C. R. de Queiroz

* Santo Agostinho, “Confissões” (tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina), Braga, Livraria Apostolado, 11ª edição, 1984

Memória (I)

Porque é frágil a memória dos homens e para que, com o tempo, não caiam no esquecimento os feitos dos mortais, nasceu o remédio da escrita para que, por meio dele, os factos passados se conservem como presentes para o futuro. *

O que é a memória?

As definições de memória falam-nos da função ou capacidade de captar, gravar/reter, armazenar/arquivar, classificar e, num segundo tempo, evocar/recuperar informação.

Em termos gerais, e de forma subjectiva, uma faculdade cognitiva de recordação ou lembrança.

Dizem-nos também que não existe uma única memória genérica, mas sim várias dimensões da memória, decorrendo de diferentes fontes / estímulos, desde os associativos, aos emocionais, passando pelos conceptuais.

E, noutro prisma, (i) Memória de procedimentos, entendida como a capacidade de reter e processar informações não verbalizadas, de que será um dos exemplos mais cabais “aprender a andar de bicicleta”; e (ii) Memória declarativa, associada à capacidade de verbalizar determinado facto, compreendendo vertentes diversas:

  • memória sensorial (tempo médio de percepção de um estímulo pelos nossos órgãos sensoriais, de 3 a 5 décimos de segundo) – visual ou auditiva (também passível de captação via outros sentidos);

  • memória de curto prazo, imediata, objecto de solicitação a todo o instante, permitindo reter – até durante um período de algumas dezenas de segundos – até cerca de 7 elementos distintos; e

  • memória de longo prazo, de cariz permanente (virtualmente, durante toda a vida) – contrariamente às anteriores, em que a informação percepcionada é rapidamente esquecida ou apagada –, com uma considerável capacidade de retenção ou armazenamento mental, a qual é depositária das nossas lembranças e aprendizagem, permitindo tirar proveito das experiências vivenciadas.

  • A memória, assim considerada como base do conhecimento, necessita portanto ser trabalhada / estimulada, facultando também a partilha entre indivíduos com essas vivências comuns, permitindo dessa forma a transmissão de experiências e valores entre gerações.

    * Arenga de 1260 (Viseu, Arquivo do Museu de Grão Vasco, PERG / 08)

    Memória da escrita

    E agora, como “descalço eu esta bota”?

    Eu que gosto de escrever sobre temas que me interessam, sem que, muitas vezes, tenham particular interesse para outros… Num rápido flashback, sobre o que tenho escrito ultimamente? Eleições nos Estados Unidos; recordações dos 10 anos da EXPO’98; os decisivos jogos de futebol de final de época… enfim, nada realmente palpitante; nada mais que um mero fixar de memória(s), qual arquivista ou coleccionador.

    E que, tendencialmente, me vou esquivando à análise da espuma dos dias, numa agenda mediática que vai desde a lei anti-tabágica aos preços dos combustíveis, passando pelas eleições partidárias; sem, todavia, conseguir evitar uma colherada na questão do acordo ortográfico… por isso mesmo, por ter também a ver com a “Memória”, no caso, da escrita.

    Memória que começara por ser oral – com “homens-memória” como guardiões da história –, tendo os primeiros meios gráficos surgido há cerca de vinte mil anos, datando as mais antigas formas de escrita a cerca de seis mil anos, no que constituiria uma nova forma de preservação dessa memória e de comunicação, transpondo as barreiras do tempo e do espaço.

    Somos ainda tributários dos escribas ou copistas que, no seu scriptorium, ajudaram a perpetuar a memória (da) escrita, escrevendo, primeiro sobre rolos de papiro, só mais tarde em pergaminho, precursores do que viria, com o advento dos caracteres móveis e da imprensa (apenas cerca de 1450), a tornar-se num meio de expressão de difusão universal.

    E, assim, aqui aproveito também a oportunidade que me foi proporcionada para, publicamente, prestar uma singela homenagem aos que, ainda nos dias de hoje, continuam a dedicar-se ao estudo dos materiais de escrita, das formas gráficas, à leitura dos documentos e livros, assim como dos mais antigos testemunhos do português enquanto língua escrita, a partir da segunda metade do século XII.

    Numa era em que a palavra escrita parece viver momentos de crise, chegando mesmo a projectar-se o hipotético eclipse de livros e jornais, com o hipertexto (forma de escrita não sequencial já antecipada por Leonardo Da Vinci nas múltiplas anotações aos seus textos) virtual a conquistar cada vez mais preponderância, são igualmente de louvar iniciativas como a da UNESCO que, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, criou o Programa “Memória do Mundo”, propondo que se intensifiquem os esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos.

    Também a preservação da memória virtual – a Internet como “memória colectiva da Humanidade” – não poderá deixar de constituir igualmente uma outra preocupação, nomeadamente no que respeita a questões como a longevidade dos suportes ou as restrições de acesso.

    E, com dedicatória, assim completo o círculo; para que serve um blogue se nele não podemos escrever o que queremos?

    Texto publicado originalmente no Corta-Fitas, em resposta ao amável convite que me foi dirigido por Pedro Correia, a quem reitero o meu agradecimento.

    Memória

    A 28 de Junho o Memória Virtual completa 5 anos.
    Nos próximos dias – até lá -, retomando a sua matriz, o tema em foco será a Memória, em algumas das suas múltiplas vertentes.

    (Imagens via: 1 / 2 / 3)