Leonel Vicente
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CAMÕES – LÍRICA

A primeira edição da Lírica apenas seria publicada em 1595 (“Rimas”, compilação a partir de cancioneiros manuscritos).

A obra lírica de Camões é constituída por: Redondilhas; Sonetos (composições poéticas de 14 versos, distribuídas em dois quartetos e dois tercetos); Éclogas (poesia em forma de diálogo, com tema pastoril); Odes; Elegias (composições que expressam tristeza); Canções (composições curtas); Oitavas (poemas com estrofes de 8 versos); Sextinas (poemas com estrofes de 6 versos).

Descalça vai para a fonte

“Descalça vai para a fonte

Lianor, pela verdura;

Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,

Os textos nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata,

Sainho de chamalote;

Trás a vasquinha de cote,

Mais Branco que a neve pura;

Vai fermosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro o entrançado,

Fita de cor de encarnado,

Tão linda que o mundo espanta.

Chove nela graça tanta,

Que dá graça à fermosura:

Vai fermosa, e não segura.

 
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o Mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferente em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto

E, afora esta mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de amor espanto,

Que não se muda já como soía.

[1829]

CAMÕES – AUTOS

Entendida no seu conjunto, a obra de Camões traduz a capacidade única de criação do poeta, expressa por via de diferentes géneros: épico, dramático e lírico.

Os Autos de Camões apenas seriam publicados em 1587, incluídos no volume “Primeira Parte dos Autos e Comédias Portuguesas”: os autos-comédia Enfatriões e Filodemo; El-Rei Seleuco apenas viria a ser publicado em 1645.

[1826]

“OS LUSÍADAS” (X)

A epopeia finaliza com o Canto X, com o banquete no palácio de Tétis, na Ilha dos Amores, em que é apresentada a Vasco da Gama, no cume de um monte, a “máquina do mundo”: a descrição do universo e da Terra, com indicação dos lugares até onde chegará o império português. Os portugueses partem de regresso a Portugal. Após o lamento do poeta por se sentir incompreendido, o poema conclui-se com a invocação final a D. Sebastião, incentivando-o a prosseguir o trilho da glória.

“Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d’ exprimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.

De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Anibal escarnecia,
Quando das artes bélicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.

Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado.
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.

Pera servir-vos, braço às armas feito,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina,

Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante,
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter enveja.”

[1823]

“OS LUSÍADAS” (IX)

No Canto IX, os Catuais procuram retardar o regresso da armada lusa. Vénus decide recompensar os portugueses, ordenando a Cupido e à Fama que preparem a Ilha dos Amores, em que Tétis, a deusa dos oceanos os acolhe, sendo os portugueses recebidos pelas ninfas apaixonadas. Tétis fala a Vasco da Gama sobre as futuras glórias dos portugueses.

“Tiveram longamente na cidade,
Sem vender-se, a fazenda os dous feitores,
Que os Infiéis, por manha e falsidade,
Fazem que não lha comprem mercadores;
Que todo seu propósito e vontade
Era deter ali os descobridores
Da Índia tanto tempo que viessem
De Meca as naus, que as suas desfizessem.

Lá no seio Eritreu, onde fundada
Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu
(Do nome da irmã sua assi chamada,
Que despois em Suez se converteu),
Não longe o porto jaz da nomeada
Cidade Meca, que se engrandeceu
Com a superstição falsa e profana
Da religiosa água Maumetana.

Gidá se chama o porto aonde o trato
De todo o Roxo Mar mais florecia,
De que tinha proveito grande e grato
O Soldão que esse Reino possuía.
Daqui aos Malabares, por contrato
Dos Infiéis, fermosa companhia
De grandes naus, pelo Índico Oceano,
Especiaria vem buscar cada ano.

Por estas naus os Mouros esperavam,
Que, como fossem grandes e possantes,
Aquelas que o comércio lhe tomavam,
Com flamas abrasassem crepitantes.
Neste socorro tanto confiavam
Que já não querem mais dos navegantes
Senão que tanto tempo ali tardassem
Que da famosa Meca as naus chegassem.”

[1820]

“OS LUSÍADAS” (VIII)

No Canto VIII, Paulo da Gama faz uma exposição sobre os símbolos das bandeiras, falando sobre as grandes figuras da história de Portugal (Ulisses, Viriato, Sertório, D. Henrique, Afonso Henriques, Egas Moniz, entre outros). Baco procura instigar um sacerdote muçulmano contra os portugueses. Vasco da Gama é retido, tendo de ser resgatado por troca com mercadorias, lamentando o poeta a importância atribuída ao vil metal, origem de corrupção e traição.

“Na primeira figura se detinha
O Catual que vira estar pintada,
Que por divisa um ramo na mão tinha,
A barba branca, longa e penteada.
Quem era e por que causa lhe convinha
A divisa que tem na mão tomada?
Paulo responde, cuja voz discreta
O Mauritano sábio lhe interpreta:

– «Estas figuras todas que aparecem,
Bravos em vista e feros nos aspeitos,
Mais bravos e mais feros se conhecem,
Pela fama, nas obras e nos feitos.
Antigos são, mas inda resplandecem
Co nome, entre os engenhos mais perfeitos.
Este que vês, é Luso, donde a Fama
O nosso Reino «Lusitânia» chama.

«Foi filho e companheiro do Tebano
Que tão diversas partes conquistou;
Parece vindo ter ao ninho Hispano
Seguindo as armas, que contino usou.
Do Douro, Guadiana o campo ufano,
Já dito Elísio, tanto o contentou
Que ali quis dar aos já cansados ossos
Eterna sepultura, e nome aos nossos.

 «O ramo que lhe vês, pera divisa,
O verde tirso foi, de Baco usado;
O qual à nossa idade amostra e avisa
Que foi seu companheiro e filho amado.
Vês outro, que do Tejo a terra pisa,
Despois de ter tão longo mar arado,
Onde muros perpétuos edifica,
E templo a Palas, que em memória fica?”

[1818]

“OS LUSÍADAS” (VII)

O Canto VII começa por elogiar a expansão portuguesa como uma cruzada, espalhando a fé cristã, fazendo de seguida uma descrição da Índia. Dá-se o desembarque, seguido de encontro com o Samorim. O regedor Catual visita a armada portuguesa, pedindo a Paulo de Gama que explique o significado das figuras nas bandeiras.

“Já se viam chegados junto à terra
Que desejada já de tantos fora,
Que entre as correntes índicas se encerra
E o Ganges, que no Céu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora:
Já sois chegados, já tendes diante
A terra de riquezas abundante!

A vós, ó geração de Luso, digo,
Que tão pequena parte sois no mundo,
Não digo inda no mundo, mas no amigo
Curral de Quem governa o Céu rotundo;
Vós, a quem não sòmente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo,
Mas nem cobiça ou pouca obediência
Da Madre que nos Céus está em essência;

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A lei da vida eterna dilatais:
Assi do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito poucos que sejais,
Muito façais na santa Cristandade.
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

Vede’los Alemães, soberbo gado,
Que por tão largos campos se apacenta;
Do sucessor de Pedro rebelado,
Novo pastor e nova seita inventa;
Vede’lo em feias guerras ocupado,
Que inda co cego error se não contenta,
Não contra o superbíssimo Otomano,
Mas por sair do jugo soberano.”

[1815]