Leonel Vicente
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ALMADA NEGREIROS - “MANIFESTO ANTI-DANTAS” (II)

“Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!

Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas!

 Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!

O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!

O Dantas é um soneto dele-próprio!

O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.

O Dantas nu é horroroso!

O Dantas cheira mal da boca!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas é o escárnio da consciência!

Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!

O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Dantas é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa!

E quem tenha dó do Dantas!

E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!”

[2014]

ALMADA NEGREIROS - “MANIFESTO ANTI-DANTAS” (I)

“Basta pum basta!!!

Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a geração!

Morra o Dantas, morra! Pim!

Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!

Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!

O Dantas é um cigano!

O Dantas é meio cigano!

O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!

O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!

O Dantas é um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas é Dantas!

O Dantas é Júlio!

Morra o Dantas, morra! Pim!

O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d’Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!

E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!

O Dantas é um ciganão!”

[2012]

ALMADA NEGREIROS (II)

AlmadaNegreirosRegressado a Portugal, iniciou uma colaboração com António Ferro, que o convidou para desenhar para a “Ilustração Portuguesa”; em 1923, desenharia a capa do livro de Ferro (”A Arte de Bem Morrer”).

Continuaria a escrever peças (”Pierrot e Arlequim”, 1924), romances (”Nome de Guerra”, em 1925) e ensaios (”Questão dos Painéis”, 1926).

Partiria depois para Espanha, onde viveu de 1927 a 1932, casando em 1934 com a pintora Sarah Afonso.

Começou depois a trabalhar para o Estado, com um selo comemorativo da 1ª Exposição Colonial, um cartaz para o álbum “Portugal 1934″. Desenvolve também os estudos para os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, concluídos em 1938.

Em 1942, depois da exposição “Almada – Trinta Anos de Desenho”, ganha o “Prémio Columbano”. Nos anos de 1943 a 1948, ocupou-se com os frescos das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, ganhando, em 1946, o Prémio Domingos Sequeira.

Em 1951, realizou também os vitrais da Igreja do Santo Condestável em Lisboa e os da Capela de S. Gabriel, em Vendas Novas. Em 1954, pinta o “Retrato de Fernando Pessoa”.

No final da década de 50, participaria na decoração de obras de arquitectura, nomeadamente painéis para o Edifício das Águas livres, decoração das fachadas dos edifícios da Cidade Universitária.

Realizaria os seus últimos trabalhos em 1969, com o painel “Começar”, do átrio da Fundação Calouste Gulbenkian. Almada Negreiros deixou-nos a 15 de Junho de 1970 (tal como Fernando Pessoa, no Hospital de São Luís dos Franceses).

[2007]

ALMADA NEGREIROS (I)

AlmadaNegreiros-Auto-retrato

José Sobral de Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe em 7 de Abril de 1893, filho do administrador do concelho de S. Tomé.

Estudou no Colégio dos Jesuítas de Campolide e, posteriormente (em 1910), no Liceu de Coimbra, tendo, a partir de 1811, frequentado a Escola Internacional de Lisboa.

Em 1913, apresentou a sua primeira exposição individual, mostrando cerca de 90 desenhos. Nesta mesma época, conheceu Fernando Pessoa.

Colaborava já então como ilustrador de diversas publicações; em 1914, seria director artístico do semanário monárquico “Papagaio Real”.

Em 1915, escreveu a novela “A Engomadeira”, que publicaria em 1917, numa aproximação ao surrealismo. Colabora também na Revista “Orpheu”, realizando ainda, no mesmo ano, o bailado “O Sonho da Rosa”. Também em 1915, escreveria, a propósito da peça de Júlio Dantas (”Soror Mariana”) o “Manifesto Anti-Dantas”, uma crítica dirigida contra o escritor então dominante na literatura “conservadora” em Portugal, em relação ao qual Almada aplica a sua violenta ironia.

De seguida, publicaria o Manifesto da exposição de Amadeo de Souza Cardoso, denominado “Primeira Descoberta de Portugal na Europa no Século XX”, assim como a novela “K4 O Quadrado Azul”.

Em 1919, com o termo da I Guerra Mundial, partiu para Paris, onde publicou, em 1922, “Histoire du Portugal par coeur”.

[2002]