Leonel Vicente
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Archive for the ‘Livro do mês’


“O Sétimo Selo” (IV)

E será Nadia a colocar Tomás a par das recentes evoluções climatológicas na Sibéria – com um aumento da temperatura média de 5 graus nos últimos 30 anos – com locais em que o gelo da tundra começa a derreter, surgindo a terra a descoberto, um fenómeno que não ocorria há milénios, permitindo especular sobre a possibilidade de deixar de haver gelo permanente no Pólo Norte antes de 2030.

Sublinhando a constatação de que – desde que em 1850 se iniciaram os registos de temperaturas – 11 dos 12 anos mais quentes ocorreram desde 1995!

Um aquecimento entre 1 e 6 graus, previsto para o século XXI (pelo Painel intergovernamental de cientistas criado pela ONU) – desencadeado pelo efeito de estufa provocado pelo dióxido de carbono libertado para a atmosfera, decorrente da queima de combustíveis fósseis -, resultando num Verão permanente por toda a parte, com “secas cada vez mais graves, tempestades crescentemente violentas, incêndios florestais generalizados“… culminando inclusivamente no alastrar de doenças tropicais.

Tendência que conduz inevitavelmente à subida do nível do mar, com consequências igualmente desastrosas; a somar aos 17 centímetros de subida já verificada desde o início do século XX, bastarão mais cerca de 50 centímetros para que toda a Polinésia fique submersa… assim como parte do litoral português. Uma estimativa de subida que pode exceder os 4 metros, atingindo os 7 metros, faria com que muitas ilhas e parte da costa de todos os continentes ficassem também abaixo do nível da água. Mas com o alerta de que essa estimativa poderá vir ainda a ser largamente excedida pela realidade.

Situações agravadas com a crescente industrialização da China e da Índia, com um modelo de desenvolvimento igualmente assente nos combustíveis fósseis.

Um verdadeiro Apocalipse em perspectiva, para o qual urge – de uma vez por todas – tomar consciência!

“O Sétimo Selo” (III)

Ficamos então a saber que o petróleo corresponde a restos de matéria viva, derivando da gordura de animais mortos há milhões de anos – a qual compreende hidrogéneo, que aliado ao carbono (elemento mais comum nos seres vivos), origina os hidrocarbonetos, num processo complexo que requer condições ideais de temperatura (entre os 100 e os 135 graus Celsius) e profundidade, durante determinado período de tempo. E ainda que, dos 600 sistemas existentes no planeta com condições para a produção de petróleo, 400 estão a ser ou já foram explorados, encontrando-se os restantes em zonas de águas profundas ou no Árctico.

São-nos mencionados os primórdios da exploração petrolífera, com as grandes companhias europeias e americanas a instalarem-se no Irão, Iraque e Arábia Saudita, tal como a nacionalização decidida pelo Irão em 1951, e a criação da OPEP em 1961. Ao mesmo tempo que é apontado que o pico de produção dos EUA e Canadá foi já atingido na década de 70 do século passado, estimando-se que esse pico seja atingido até 2015 no que respeita ao petróleo com origem fora dos países membros da OPEP. É ainda destacado o consumo anual superior a 24 mil milhões de barris.

A extrema dependência do actual modelo de desenvolvimento provocou já convulsões significativas em fases de ruptura temporária da produção, em 1974, 1979 e 1991, questionando-se os efeitos de uma ruptura permanente, cuja ocorrência será apenas uma questão de tempo, dependendo das reais (e actualmente ignoradas) reservas dos membros da OPEP.

A etapa seguinte do périplo conduz Tomás de Noronha à Rússia, a Moscovo, onde conhece o seu o novo e efémero par, Nadezhda (ou, simplesmente, Nadia, uma estudante universitária de Climatologia), no ponto de partida para uma longa viagem de Transiberiano… até à Sibéria, no trilho do reencontro com um antigo colega de liceu.

“O Sétimo Selo” (II)

Dissecadas as fraquezas romanescas de “O Sétimo Selo”, abordemos então os seus méritos, em particular na divulgação da ameaça provocada pelo aquecimento global.

Apoiando-se em reputados especialistas, na área das mudanças climáticas (Filipe Duarte Santos), e na área energética (Nuno Ribeiro da Silva), é de forma impressiva que José Rodrigues dos Santos assume a vertente didáctica (aqui e ali, exagerando em repetitivas descrições, recorrendo a emissores e a diálogos nem sempre verosímeis), apresentando e explicando de forma pormenorizada as causas e impactos do consumo de combustíveis de origem fóssil.

Em flashback, a acção inicia-se na Antárctida, no Pólo Sul, com o desmoronar (e desaparecimento) – consequência do aquecimento do planeta – de uma plataforma de mais de duzentos metros de espessura de gelo… e com o assassinato de um cientista perito em climatologia.

Desaparecimento que alterará o equilíbrio entre o mais quente ar marítimo e a temperatura dos glaciares, vindo a provocar o degelo e consequente aumento do nível das águas do mar.

O assassínio de um segundo cientista, professor de Física na Universidade de Barcelona – sendo que, ao lado de ambos os corpos, fora encontrado um papel com um estranho sinal, com os dígitos 666 – constituiria o fundamento para o recurso ao protagonista, Tomás de Noronha, perito em criptanálise.

Iniciando a sua missão em Viena, na sede da OPEP, tendo por interlocutor um saudita, somos transportados até à erupção – em 1901, numa perfuração em Spindletop, no Texas – de gás metano líquido e negro, a que viríamos a chamar petróleo, revelando-se então, pela primeira vez, como um recurso energético abundante (bastante mais potente, seguro e limpo do que o carvão, até então a matéria-prima de base), permitindo o desenvolvimento de novos processos industriais… e o surgimento e desenvolvimento do uso do automóvel – constituindo-se na origem do negócio que mais dinheiro movimenta em todo o mundo.

“O Sétimo Selo” (I)

OA obra literária de José Rodrigues dos Santos apresenta uma característica transversal a todos os seus livros: desde os ensaios “Crónicas de Guerra” (2 volumes, “Da Crimeia a Dachau” e “De Saigão a Bagdade”), passando pelos romances, como “A Filha do Capitão” (tendo por temática a I Guerra Mundial), “O Codex 632″ (elaborando sobre as origens de Cristóvão Colombo) ou “A Fórmula de Deus” (recorrendo a complexos conceitos de Física e Cosmologia, mesclando ciência com uma dimensão espiritual), a componente “didáctico-pedagógica” não deixa nunca de estar presente. Com todas estas obras, sempre aprendemos algo.

Necessariamente, assim teria de acontecer também com “O Sétimo Selo”, que – lamento, pela consideração e respeito que me merece o autor – me vejo compelido a qualificar como um romance falhado, que poderia – com vantagem para todos, leitores e autor (não obstante o inevitável prejuízo da vertente comercial) – ter resultado em novo ensaio em potencial, cujo conteúdo e mensagem só teria a ganhar em credibilidade caso fosse essa a forma adoptada.

Mais do que em qualquer dos seus anteriores romances, ressalta em “O Sétimo Selo” a escrita “ao correr da pena”, de um jacto, procurando explorar o “filão Dan Brown” (revelando-se inevitável a associação do prólogo com o início de “A Conspiração”), com o eterno herói Tomás de Noronha (perito em criptanálise e línguas antigas – ficamos sem perceber exactamente qual o fundamento do seu recrutamento para esta missão, tão frágil se revela o argumento da charada do “número da besta”, o mítico 666) envolvido em novas e rocambolescas aventuras, vivendo uma espécie de romance (?) – aqui, perfeitamente “colado com cuspo” – com uma sempre remodelada (e algo inverosímil) co-protagonista.

Não obstante as cerca de 500 páginas deste livro, a sensação que perdura é a de um apressado corropio, desde Coimbra à Austrália, passando pela Antárctida, Viena e Sibéria.

Pretendendo embrulhar a vital mensagem do aquecimento global e dos efeitos da exploração e consumo de petróleo como força motriz do desenvolvimento económico da nossa civilização numa obra de cariz romanesco, acabam por ressaltar, tendo de ser sublinhadas, as suas inconsistências ou incongruências, de que são mais cabais exemplos a (em minha opinião) infeliz forma como é introduzida na trama a questão geriátrica (com o protagonista, a assumir a perfídia de, traiçoeiramente, internar a mãe num lar de idosos), para além da também falida pressuposta relação romântica do protagonista.

Crítica literária

Num país de 10 milhões de treinadores de bancada, campeões do achismo, evoluímos agora, na senda de uma trajectória darwinista, assumindo novas funções como críticos literários.

Fosse eu escritor – em particular, partilhando esse mais ou menos novel estatuto com o de figura mediática – confesso que seria porventura capaz de me sentir algo intimidado com as facas aguçadas dessa mole de novos especialistas, prontas a escrutinar (talvez a palavra mais apropriada fosse dissecar) a qualidade dos textos destes novos escribas… que – pasme-se – chegam inclusivamente ao extremo de elaborar (falo da nova classe de críticos) sobre obras que declaram não ter lido, nem ter intenção de ler (exclamação!).

Vem este arrazoado a propósito – inevitavelmente – das recentes publicações da autoria de José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares.

Para termos uma ideia do ponto a que chegámos, do actual estado da arte, haverá memória de um autor escrever – preto no branco, sem papas na língua – no próprio livro que acaba de lançar: “Aos leitores garanto a seriedade do relato histórico, aos caçadores de erros a inutilidade final do seu esforço”?

Por mim, aqui manifesto igualmente o atrevimento de me vir arrogar o direito a integrar também esse regimento de novos críticos.

Porque se trata de obras que me despertam interesse; que, necessariamente, terão méritos, virtudes e defeitos; cujo mediatismo autoral e natureza comercial (e respectivas campanhas de marketing associadas, que fatalmente delas farão autênticos best-sellers) não lhes conferirá, à partida, nem um selo de garantia de qualidade, nem um carimbo prévio de reprovação.

Porque as li.

A seguir (ainda hoje), começando por “O Sétimo Selo”.

10 (+ 2) LIVROS

Correspondendo ao desafio do Mário Pires (Retorta), alguns (“10 + 2″) dos livros “que mudaram a minha vida”:

- Miguel Strogoff, de Jules Verne (o primeiro livro que comprei com o “meu dinheiro” – por 45$00! -, em 1976, que, naturalmente, conservo ainda hoje)

- O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (uma inesquecível história de ternura e amizade)

- Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (que li pela primeira vez aos 11 anos; adquirido com um “cheque-brinde” de Natal que deveria ser normalmente destinado a comprar “brinquedos”)

- A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós (livro com o qual comecei a “aprender a escrever” em português)

- O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco (porque os Templários teriam “inevitavelmente” de fazer parte da minha vida – é como um deles que fui caracterizado pelo histórico Francisco Zambujal na caricatura do livro de curso…)

- Mr. Vertigo, de Paul Auster (uma das “portas de entrada” para o meu autor preferido, que levaria a que, uma a uma, acabasse por adquirir quase todas as suas obras)

- Equador, de Miguel Sousa Tavares (“responsável” pela criação deste blogue, acabando por dar origem – de facto, mesmo que por via indirecta – a “mudanças na minha vida”)

- Terra Sonâmbula, de Mia Couto (um autor admirável, que vem abrindo “novos horizontes” à língua portuguesa)

- Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, de Richard Zimler (outro dos meus autores favoritos…)

- O Clube Dumas, de Arturo Pérez Reverte (uma escolha por “motivos pessoais”, passe a redundância… um livro lido “em trânsito”, entre Alfas e Inter-Cidades)

- O Afinador de Pianos, de Daniel Mason (idem)

- A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (uma obra de tal forma empolgante, com uma singular técnica narrativa, prendendo o leitor da primeira à última página… que a li numa versão em francês, comprada em Barcelona, cidade que constitui o cenário principal da trama do livro!)

Cap, Catarina, Maria Árvore, Partilhas e Zé (ex-Eufigénio), se vos der prazer e se vos divertir, podem “pegar na corrente”…

MPB.pt (VI) – CAETANO VELOSO (1 de Agosto de 2006)

“Eu gostava das notícias que chegavam da Suécia por causa da liberdade sexual e da experiência da social-democracia, que eu achava superior àquele negócio do comunismo da União Soviética. Meus amigos comunistas ficavam contra, porque diziam que aquilo era uma contrafacção burguesa para impedir o avanço da revolução. Eu sempre fui desconfiado desse pessoal. […]

Porque é uma língua muito pouco conhecida, cuja literatura é muito pouco conhecida fora do âmbito da própria língua portuguesa. Cuja vida cultural é pouco conhecida fora desse âmbito. Por isso é um gueto. É fechada. A vida da língua portuguesa é fechada ao mundo de língua portuguesa. Não é como o inglês ou o espanhol. Não é tão fechada quanto o esloveno, porque o esloveno é falado por um grupo pequeníssimo de pessoas, apenas na Eslovénia. O português é falado em Portugal, um país pequeno mas que fez grandes viagens. Ao fazê-las, levou a língua daqui, dessa ponta da Península Ibérica para várias partes do mundo. Uma delas é o imenso Brasil. […]

Eu não costumo ouvir os meus discos. Nem antigos, nem novos. Eu não gosto muito de me ouvir, não. Eu gosto de cantar, mas não gosto de me ouvir. Sempre acho que não saiu bem, que as gravações não são boas. Eu podia ter feito discos muito melhores. Podia ter feito, realmente, discos bons. […]

Eu me reconheço muito mais nas minhas fotos de antigamente do que nas de hoje. Nas de hoje eu passo o olho rápido. Não gosto nem de ver. Eu gostava quando eu era jovem. Ainda gosto. Acho bonito, sexy, atraente, interessante. Tudo. […]

Tenho a impressão de que todo o mundo – acho que Sartre dizia isso – quando pensa em si mesmo, como alguém, é um jovem adulto. Entendeu? Ninguém pensa em si mesmo como um bebé, que foi, ou como um velhinho, que vai ficando. Ninguém. Não é a pessoa.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006