Leonel Vicente
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Archive for the ‘Livro do mês’


Diário do Booker

Este é o relato de uma missão impossível.

Uns dias depois de ser conhecida a shortlist do Man Booker Prize 2008, encomendei pela Amazon os seis livros finalistas. Objectivo: ler tudo antes da decisão do júri, a 14 de Outubro. Devorar os seis romances de enfiada e ir dizendo o que penso de cada um deles. Os entusiasmos, as desilusões, os pontos fortes e fracos de cada livro, os avanços e recuos das tramas narrativas, alguns excertos e, no fim, seis críticas que justificarão o meu veredicto, a minha escolha – coincidente ou não (veremos) com a do júri presidido por Michael Portillo.

Enfim, a ideia é fazer uma espécie de diário de leitura. Este diário de leitura.

José Mário Silva (Bibliotecário de Babel)

“Rio das Flores” (V)

Concluindo como iniciei, “Rio das Flores” é uma obra ambiciosa, o que, associado à intensa promoção comercial de que beneficia, contribui para o elevar da fasquia a um nível porventura excessivamente elevado e eventualmente desfasado da ideia e objectivo que presidiu à sua escrita.

Trata-se de uma realização com amplos méritos, com inegável valor acrescentado – numa área e sob uma perspectiva ainda pouco exploradas -, que, como o próprio autor enfatiza, não é um livro de história, mas sim um romance histórico.

Num balanço final, a componente romance (e de “saga familiar”) acaba, na minha leitura (repetindo-me, também à luz da referida promoção de que tem sido alvo, tendo presentes as expectativas suscitadas), por ocupar uma parte algo excessiva da obra – muito centrada sobre a figura do protagonista e suas andanças – a que acresce um final desprovido de surpresa.

Sendo vasto o trabalho de contextualização histórica, peca ainda assim por visar vários cenários geo-políticos: se é brilhante a descrição de episódios da Guerra Civil de Espanha e pormenorizada a caracterização sócio-cultural do Brasil – e não obstante a sucessão de factos históricos que são relatados – esperar-se-ia mais (e maior relevância na trama) do enquadramento político de Portugal no período abarcado pelo livro, de 1915 a 1945, uma fase crucial que condicionaria decisivamente a história do século XX português.

Em última análise, é ao autor do livro que cabe a prerrogativa de seleccionar qual a mensagem que pretende transmitir; no caso, tendo como “pano de fundo” a envolvente histórica, terá entendido privilegiar a estória de vida do protagonista e seus mais próximos.

“Rio das Flores” (IV)

Em busca de uma sempre difícil objectividade – não obstante acabar por tomar partido, de forma inequívoca, por uma das partes – o autor exponencia a dissensão política entre os irmãos, dando voz à perspectiva de Pedro, em diálogo de ruptura com Diogo:

«Tu gostas de Valmonte, mas não gostas da ideia de teres que defender a tua terra contra os teus inimigos. Gostas muito de brincar aos liberais e aos democratas, de ser muito compreensivo com os trabalhadores da herdade, mas, bem no fundo de ti, não gostas da ideia de que um dia eles não se contentem com isso e te queiram roubar a terra. Fazes muito gáudio em ser contra o Salazar e o Estado Novo, mas não gostarias de viver numa anarquia onde cada um não soubesse qual é o seu lugar e o teu não fosse o de uma vida confortável e despreocupada, com as mordomias correspondentes ao teu berço e à tua condição social e económica. Gostas muito do teu casamento e da tua família, mas desde que te dêem espaço para passares temporadas só para ti em Lisboa ou, melhor ainda, no Rio de Janeiro, a desempenhar o papel de que tu mais gostas: o de intelectual antifascista, culto e livre, moderno e cosmopolita, capaz de desembarcar de zeppelin e de ler jornais em quatro línguas. Mas o teu mundo só se aguenta, Diogo, porque há outros que pegam em armas e sujam as mãos e as consciências para defenderem o essencial dele. [...] Eu, ao menos, lutei por aquilo em que acredito. Mas não te vi, nem do meu lado, nem ao menos do outro, Diogo! [...] Podes crer que o teu papel foi bem mais fácil que o meu!».

Fatalmente atraído – como que por um qualquer estranho magnetismo – para o Brasil, onde as terras, com abundância de água, tinham um preço muito inferior ao praticado em Portugal, e os trabalhadores auferiam salários largas vezes inferiores, Diogo depara-se com o “lugar mais bonito que alguma vez vira à face da terra”, a Fazenda Águas Claras, junto ao Rio das Flores, nomes proféticos, correspondendo ao que, sem o saber de forma consciente, buscava. A 10 de Novembro de 1937, tornava-se dono de uma fazenda no Brasil…

Algum tempo depois, a pretexto da declaração de guerra – a 3 de Setembro de 1939 -, proclamada pela Inglaterra contra a Alemanha nazi, Diogo via-se retido no Brasil, sem poder viajar de forma segura para a Europa.

E assim se iria deixando ficar; ao mesmo tempo que criava e reforçava os laços à sua nova terra, mais se afastava de Portugal… e da família, com quem a troca de correspondência ia sendo cada vez mais espaçada.

“Rio das Flores” (III)

O romance compreende ainda outras passagens de bom nível, como, por exemplo, a propósito da ascensão política de Salazar («Era um típico beirão, baixinho, desconfiado, sorrateiro, de voz melíflua, quase feminina, e falsa modéstia, que exibia aos quatro ventos»), que o autor sintetiza assim: «Sem “aspirar a tanto”, ficaria lá quarenta anos e, apesar das “limitações de ordem moral” que a sua natureza lhe impunha, mandou perseguir, prender e exilar e fechou os olhos a que a sua polícia política torturasse e até, em situações extremas, matasse os que se lhe opuseram. Sempre, sempre sustentado pelas Forças Armadas, cortejado pelos monárquicos e abençoado pela Santa Madre Igreja».

Síntese que retoma, mais adiante, a propósito do regime político que adoptaria o nome oficial de Estado Novo, criando o partido único, a União Nacional, no qual Pedro (o irmão de Diogo Ribera Flores) seria um dos primeiros a inscrever-se, logo aquando da sua chegada a Estremoz, em 1932, começando desde então a organizar reuniões “conspirativas” a propósito da situação política em Espanha, com o advento da República… que viriam a culminar num afastamento entre os dois irmãos, o qual contribuiria também para o novo rumo que Diogo seguiria na sua vida, a caminho do Brasil, assim se esquivando ao Portugal de Salazar.

A pretexto da necessidade do acompanhamento e orientação, por parte de Diogo (uma “vedeta”, chegado de balão, na sua viagem inaugural), dos seus negócios no Brasil, o autor apresenta-nos um painel descritivo da atmosfera que se vivia então no país irmão de além-Atlântico, caracterizando com detalhe o hotel em que começara por se alojar, os restaurantes, cafés e confeitarias onde se cruzavam políticos, intelectuais, viajantes, homens de negócios, espiões e jornalistas – assim aproveitando também para introduzir o contexto sócio-político brasileiro da época.

Surpreendido com a notícia de que o irmão Pedro se alistara nas hostes nacionalistas na Guerra Civil de Espanha, Diogo vê-se compelido a um interregno na sua estadia brasileira, e a regressar à herdade de Valmonte. Baixando a cortina sobre o cenário brasileiro, de imediato se abre uma outra a propósito da guerra espanhola, numa das secções mais conseguidas da obra, numa descrição de grande realismo e crueza, explorada ao longo de cerca de 50 páginas, com sequelas que perdurariam até final da narrativa.

“Rio das Flores” (II)

Num prometedor arranque, Miguel Sousa Tavares proporciona-nos páginas de elevado padrão, como as que nos introduzem o protagonista – Diogo Ascêncio Cortes Ribera Flores, nascido em 1900, filho de Manuel Custódio e neto de uma sevilhana – que começamos por encontrar em Sevilha, na sua iniciação à vida adulta, como intróito à Feira tauromáquica (“Partira com o pai para Sevilha com quinze anos e três meses de idade e regressara, treze dias depois, feito um homem“).

É com brilhantismo que nos é descrito o duelo na arena da Real Maestranza, naquele 30 de Setembro de 1915, entre duas figuras maiores do toureio a pé, José Gómez Ortega (conhecido por Joselito “El Gallo” ou “Gallito”) e Juan Belmonte, cujas admiráveis actuações conseguimos visualizar tal a imagética da escrita, consagrando os respectivos “domínio natural” e temple.

Tal como a força da imagem que decorre de trecho de um diálogo entre Diogo e o seu irmão mais novo Pedro – cujo pensamento político se situa nos antípodas, alinhado com o Estado Novo e a União Nacional, com passagem pela Guerra Civil de Espanha, ao lado dos Nacionalistas / Falangistas, combatendo os Republicanos -, quando confidencia: “Tenho medo de uma coisa que tu não temes: que, depois de conhecer a liberdade, de ter viajado e vivido em países livres, não me volte a habituar a viver de outra maneira. Tenho medo que a liberdade se torne um vício, enquanto que agora é apenas uma saudade“.

Ou, ainda, a descrição da viagem inaugural – a 1 de Abril de 1936 – do imponente Hindenburg, o dirigível que, a partir da Alemanha, conduz o protagonista à descoberta do fascínio do Brasil, com chegada à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro – e, paralelamente, a uma viragem de 180º na sua vida.

E, também, noutro plano, a história de Luís Carlos Prestes, e suas iniciativas na luta contra o regime de Getúlio Vargas no Brasil.

“Rio das Flores” (I)

Rio das FloresComo ponto prévio às breves notas que aqui apresentarei a propósito de “Rio das Flores”, do forçoso cotejo deste livro com o mais recente romance de José Rodrigues dos Santos, é mister assinalar que se trata de obras cuja escrita se situa em patamares bastante diferentes, com evidente vantagem para a de Miguel Sousa Tavares.

Que – na sequência do êxito alcançado com “Equador” – procurava, com este novo livro, a consolidação e afirmação como romancista, permitindo-se passagens algo pretensiosas, de que recupero alguns trechos a título de exemplo:

«A mãe ficara na quinta, a vê-los partir da entrada da casa, às primeiras horas da manhã daquela quinta-feira do final de Setembro, ainda o sol mal dispersara a névoa suspensa sobre a charca em frente ao terreiro da casa, onde o primeiro restolhar das asas dos patos afastava os gritos nocturnos das corujas e das rãs.» (página 14)

«Uma mão invisível, vinda das montanhas por trás da cidade, tinha pegado nele como um náufrago à deriva e tinha-o feito seu refém, cativo para sempre da luz que magoava, do calor que entorpecia, da humidade que o prostrava de exaustão feliz.» (página 325)

«[…] voara sobre os mares e oceanos numa viagem onde o sonho e a ousadia da ciência se fundiam num impensável desafio aos deuses, desembarcara num país impossível, fora de todas as classificações e experiências, onde descobrira, com uma lucidez quase cruel, que a fronteira entre o juízo e a perdição é uma linha demasiado ténue» (página 462).

A vasta promoção comercial deste romance contribuiu – ainda com maior intensidade – para elevar as expectativas a níveis absolutamente inusuais em Portugal.

Dito isto, concluída a leitura do derradeiro capítulo do livro, o inevitável sentimento é de decepção. À medida que as páginas e capítulos se vão sucedendo, com variadas mutações de cenário – desde o Alentejo (Herdade de Valmonte, próximo de Estremoz) ao Brasil, passando por Lisboa, Espanha e, inclusivamente, pela Alemanha – ficamos sempre à espera de mais…

Em particular, no que respeita à contextualização histórica do romance – abarcando um período decisivo da história de Portugal, da Europa e do Mundo, desde o início do século XX (1915) até cerca de 1945 -, Miguel Sousa Tavares, visando construir uma obra de “grande fôlego”, acabaria, em minha opinião, por ser vítima dessa desmedida ambição; ter-se-á alongando excessivamente na acção romanesca, o que acabaria por lhe retirar margem para uma mais profunda caracterização dos diversos espaços geo-políticos que pretendia abordar (os períodos de ditadura em Portugal, Espanha, Alemanha e Brasil).

E, não obstante, tudo começara de uma forma absolutamente cativante, na Real Maestranza de Sevilha

“O Sétimo Selo” (V)

Com o reencontro com Filipe (que se especializara entretanto na área da Energia, em particular do Petróleo), Tomás é informado sobre o falhanço do Protocolo de Quioto – em que a maior parte dos países desenvolvidos assumira o compromisso de, até 2012, reduzir as emissões globais de dióxido de carbono para valores inferiores aos de 1990… nunca ratificado pelos EUA.

Tomando também conhecimento das previsões alarmistas de que o cruzar de uma determinada temperatura crítica poderá vir a desencadear fenómenos descontrolados, perdida a capacidade de auto-regulação da Terra.

Sendo ainda alertado para o efeito – que ignorava – do metano (presente por baixo do gelo da tundra da Sibéria) sobre o aquecimento global… chegando ao extremo de se falar mesmo de “extinção em massa”!

Concluindo com a estranha descontracção (apatia ou autismo?!) pública face ao aquecimento global, em contraponto ao pânico manifestado pelos peritos, Filipe colocaria a interrogação:

“Quando os cientistas do painel da ONU vieram a público e confirmaram que, nas próximas décadas, as tempestades vão ficar mais violentas, o deserto irá alastrar para mais de metade do planeta e o nível do mar vai subir uma dezena de metros ou mais, o que seria normal acontecer? Acho que a CNN teria de interromper a emissão com grande espalhafato, milhões de pessoas deveriam ter saído às ruas em terror a exigir mudanças imediatas na política energética, os dirigentes políticos teriam de vir à televisão anunciar medidas de emergência para enfrentar esta catástrofe”.

As aventuras romanescas prosseguiriam, ainda com passagem pela Austrália, desde Sydney ao Uluru… mas – à parte algumas curiosidades adicionais a propósito da exploração do petróleo (e as referências bibliográficas de apoio) – isso já pouco virá acrescentar de realmente útil a este livro.

“O Sétimo Selo” (IV)

E será Nadia a colocar Tomás a par das recentes evoluções climatológicas na Sibéria – com um aumento da temperatura média de 5 graus nos últimos 30 anos – com locais em que o gelo da tundra começa a derreter, surgindo a terra a descoberto, um fenómeno que não ocorria há milénios, permitindo especular sobre a possibilidade de deixar de haver gelo permanente no Pólo Norte antes de 2030.

Sublinhando a constatação de que – desde que em 1850 se iniciaram os registos de temperaturas – 11 dos 12 anos mais quentes ocorreram desde 1995!

Um aquecimento entre 1 e 6 graus, previsto para o século XXI (pelo Painel intergovernamental de cientistas criado pela ONU) – desencadeado pelo efeito de estufa provocado pelo dióxido de carbono libertado para a atmosfera, decorrente da queima de combustíveis fósseis -, resultando num Verão permanente por toda a parte, com “secas cada vez mais graves, tempestades crescentemente violentas, incêndios florestais generalizados“… culminando inclusivamente no alastrar de doenças tropicais.

Tendência que conduz inevitavelmente à subida do nível do mar, com consequências igualmente desastrosas; a somar aos 17 centímetros de subida já verificada desde o início do século XX, bastarão mais cerca de 50 centímetros para que toda a Polinésia fique submersa… assim como parte do litoral português. Uma estimativa de subida que pode exceder os 4 metros, atingindo os 7 metros, faria com que muitas ilhas e parte da costa de todos os continentes ficassem também abaixo do nível da água. Mas com o alerta de que essa estimativa poderá vir ainda a ser largamente excedida pela realidade.

Situações agravadas com a crescente industrialização da China e da Índia, com um modelo de desenvolvimento igualmente assente nos combustíveis fósseis.

Um verdadeiro Apocalipse em perspectiva, para o qual urge – de uma vez por todas – tomar consciência!

“O Sétimo Selo” (III)

Ficamos então a saber que o petróleo corresponde a restos de matéria viva, derivando da gordura de animais mortos há milhões de anos – a qual compreende hidrogéneo, que aliado ao carbono (elemento mais comum nos seres vivos), origina os hidrocarbonetos, num processo complexo que requer condições ideais de temperatura (entre os 100 e os 135 graus Celsius) e profundidade, durante determinado período de tempo. E ainda que, dos 600 sistemas existentes no planeta com condições para a produção de petróleo, 400 estão a ser ou já foram explorados, encontrando-se os restantes em zonas de águas profundas ou no Árctico.

São-nos mencionados os primórdios da exploração petrolífera, com as grandes companhias europeias e americanas a instalarem-se no Irão, Iraque e Arábia Saudita, tal como a nacionalização decidida pelo Irão em 1951, e a criação da OPEP em 1961. Ao mesmo tempo que é apontado que o pico de produção dos EUA e Canadá foi já atingido na década de 70 do século passado, estimando-se que esse pico seja atingido até 2015 no que respeita ao petróleo com origem fora dos países membros da OPEP. É ainda destacado o consumo anual superior a 24 mil milhões de barris.

A extrema dependência do actual modelo de desenvolvimento provocou já convulsões significativas em fases de ruptura temporária da produção, em 1974, 1979 e 1991, questionando-se os efeitos de uma ruptura permanente, cuja ocorrência será apenas uma questão de tempo, dependendo das reais (e actualmente ignoradas) reservas dos membros da OPEP.

A etapa seguinte do périplo conduz Tomás de Noronha à Rússia, a Moscovo, onde conhece o seu o novo e efémero par, Nadezhda (ou, simplesmente, Nadia, uma estudante universitária de Climatologia), no ponto de partida para uma longa viagem de Transiberiano… até à Sibéria, no trilho do reencontro com um antigo colega de liceu.

“O Sétimo Selo” (II)

Dissecadas as fraquezas romanescas de “O Sétimo Selo”, abordemos então os seus méritos, em particular na divulgação da ameaça provocada pelo aquecimento global.

Apoiando-se em reputados especialistas, na área das mudanças climáticas (Filipe Duarte Santos), e na área energética (Nuno Ribeiro da Silva), é de forma impressiva que José Rodrigues dos Santos assume a vertente didáctica (aqui e ali, exagerando em repetitivas descrições, recorrendo a emissores e a diálogos nem sempre verosímeis), apresentando e explicando de forma pormenorizada as causas e impactos do consumo de combustíveis de origem fóssil.

Em flashback, a acção inicia-se na Antárctida, no Pólo Sul, com o desmoronar (e desaparecimento) – consequência do aquecimento do planeta – de uma plataforma de mais de duzentos metros de espessura de gelo… e com o assassinato de um cientista perito em climatologia.

Desaparecimento que alterará o equilíbrio entre o mais quente ar marítimo e a temperatura dos glaciares, vindo a provocar o degelo e consequente aumento do nível das águas do mar.

O assassínio de um segundo cientista, professor de Física na Universidade de Barcelona – sendo que, ao lado de ambos os corpos, fora encontrado um papel com um estranho sinal, com os dígitos 666 – constituiria o fundamento para o recurso ao protagonista, Tomás de Noronha, perito em criptanálise.

Iniciando a sua missão em Viena, na sede da OPEP, tendo por interlocutor um saudita, somos transportados até à erupção – em 1901, numa perfuração em Spindletop, no Texas – de gás metano líquido e negro, a que viríamos a chamar petróleo, revelando-se então, pela primeira vez, como um recurso energético abundante (bastante mais potente, seguro e limpo do que o carvão, até então a matéria-prima de base), permitindo o desenvolvimento de novos processos industriais… e o surgimento e desenvolvimento do uso do automóvel – constituindo-se na origem do negócio que mais dinheiro movimenta em todo o mundo.

“O Sétimo Selo” (I)

OA obra literária de José Rodrigues dos Santos apresenta uma característica transversal a todos os seus livros: desde os ensaios “Crónicas de Guerra” (2 volumes, “Da Crimeia a Dachau” e “De Saigão a Bagdade”), passando pelos romances, como “A Filha do Capitão” (tendo por temática a I Guerra Mundial), “O Codex 632″ (elaborando sobre as origens de Cristóvão Colombo) ou “A Fórmula de Deus” (recorrendo a complexos conceitos de Física e Cosmologia, mesclando ciência com uma dimensão espiritual), a componente “didáctico-pedagógica” não deixa nunca de estar presente. Com todas estas obras, sempre aprendemos algo.

Necessariamente, assim teria de acontecer também com “O Sétimo Selo”, que – lamento, pela consideração e respeito que me merece o autor – me vejo compelido a qualificar como um romance falhado, que poderia – com vantagem para todos, leitores e autor (não obstante o inevitável prejuízo da vertente comercial) – ter resultado em novo ensaio em potencial, cujo conteúdo e mensagem só teria a ganhar em credibilidade caso fosse essa a forma adoptada.

Mais do que em qualquer dos seus anteriores romances, ressalta em “O Sétimo Selo” a escrita “ao correr da pena”, de um jacto, procurando explorar o “filão Dan Brown” (revelando-se inevitável a associação do prólogo com o início de “A Conspiração”), com o eterno herói Tomás de Noronha (perito em criptanálise e línguas antigas – ficamos sem perceber exactamente qual o fundamento do seu recrutamento para esta missão, tão frágil se revela o argumento da charada do “número da besta”, o mítico 666) envolvido em novas e rocambolescas aventuras, vivendo uma espécie de romance (?) – aqui, perfeitamente “colado com cuspo” – com uma sempre remodelada (e algo inverosímil) co-protagonista.

Não obstante as cerca de 500 páginas deste livro, a sensação que perdura é a de um apressado corropio, desde Coimbra à Austrália, passando pela Antárctida, Viena e Sibéria.

Pretendendo embrulhar a vital mensagem do aquecimento global e dos efeitos da exploração e consumo de petróleo como força motriz do desenvolvimento económico da nossa civilização numa obra de cariz romanesco, acabam por ressaltar, tendo de ser sublinhadas, as suas inconsistências ou incongruências, de que são mais cabais exemplos a (em minha opinião) infeliz forma como é introduzida na trama a questão geriátrica (com o protagonista, a assumir a perfídia de, traiçoeiramente, internar a mãe num lar de idosos), para além da também falida pressuposta relação romântica do protagonista.

Crítica literária

Num país de 10 milhões de treinadores de bancada, campeões do achismo, evoluímos agora, na senda de uma trajectória darwinista, assumindo novas funções como críticos literários.

Fosse eu escritor – em particular, partilhando esse mais ou menos novel estatuto com o de figura mediática – confesso que seria porventura capaz de me sentir algo intimidado com as facas aguçadas dessa mole de novos especialistas, prontas a escrutinar (talvez a palavra mais apropriada fosse dissecar) a qualidade dos textos destes novos escribas… que – pasme-se – chegam inclusivamente ao extremo de elaborar (falo da nova classe de críticos) sobre obras que declaram não ter lido, nem ter intenção de ler (exclamação!).

Vem este arrazoado a propósito – inevitavelmente – das recentes publicações da autoria de José Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares.

Para termos uma ideia do ponto a que chegámos, do actual estado da arte, haverá memória de um autor escrever – preto no branco, sem papas na língua – no próprio livro que acaba de lançar: “Aos leitores garanto a seriedade do relato histórico, aos caçadores de erros a inutilidade final do seu esforço”?

Por mim, aqui manifesto igualmente o atrevimento de me vir arrogar o direito a integrar também esse regimento de novos críticos.

Porque se trata de obras que me despertam interesse; que, necessariamente, terão méritos, virtudes e defeitos; cujo mediatismo autoral e natureza comercial (e respectivas campanhas de marketing associadas, que fatalmente delas farão autênticos best-sellers) não lhes conferirá, à partida, nem um selo de garantia de qualidade, nem um carimbo prévio de reprovação.

Porque as li.

A seguir (ainda hoje), começando por “O Sétimo Selo”.

10 (+ 2) LIVROS

Correspondendo ao desafio do Mário Pires (Retorta), alguns (“10 + 2″) dos livros “que mudaram a minha vida”:

- Miguel Strogoff, de Jules Verne (o primeiro livro que comprei com o “meu dinheiro” – por 45$00! -, em 1976, que, naturalmente, conservo ainda hoje)

- O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (uma inesquecível história de ternura e amizade)

- Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado (que li pela primeira vez aos 11 anos; adquirido com um “cheque-brinde” de Natal que deveria ser normalmente destinado a comprar “brinquedos”)

- A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós (livro com o qual comecei a “aprender a escrever” em português)

- O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco (porque os Templários teriam “inevitavelmente” de fazer parte da minha vida – é como um deles que fui caracterizado pelo histórico Francisco Zambujal na caricatura do livro de curso…)

- Mr. Vertigo, de Paul Auster (uma das “portas de entrada” para o meu autor preferido, que levaria a que, uma a uma, acabasse por adquirir quase todas as suas obras)

- Equador, de Miguel Sousa Tavares (“responsável” pela criação deste blogue, acabando por dar origem – de facto, mesmo que por via indirecta – a “mudanças na minha vida”)

- Terra Sonâmbula, de Mia Couto (um autor admirável, que vem abrindo “novos horizontes” à língua portuguesa)

- Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, de Richard Zimler (outro dos meus autores favoritos…)

- O Clube Dumas, de Arturo Pérez Reverte (uma escolha por “motivos pessoais”, passe a redundância… um livro lido “em trânsito”, entre Alfas e Inter-Cidades)

- O Afinador de Pianos, de Daniel Mason (idem)

- A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (uma obra de tal forma empolgante, com uma singular técnica narrativa, prendendo o leitor da primeira à última página… que a li numa versão em francês, comprada em Barcelona, cidade que constitui o cenário principal da trama do livro!)

Cap, Catarina, Maria Árvore, Partilhas e Zé (ex-Eufigénio), se vos der prazer e se vos divertir, podem “pegar na corrente”…

MPB.pt (VI) – CAETANO VELOSO (1 de Agosto de 2006)

“Eu gostava das notícias que chegavam da Suécia por causa da liberdade sexual e da experiência da social-democracia, que eu achava superior àquele negócio do comunismo da União Soviética. Meus amigos comunistas ficavam contra, porque diziam que aquilo era uma contrafacção burguesa para impedir o avanço da revolução. Eu sempre fui desconfiado desse pessoal. […]

Porque é uma língua muito pouco conhecida, cuja literatura é muito pouco conhecida fora do âmbito da própria língua portuguesa. Cuja vida cultural é pouco conhecida fora desse âmbito. Por isso é um gueto. É fechada. A vida da língua portuguesa é fechada ao mundo de língua portuguesa. Não é como o inglês ou o espanhol. Não é tão fechada quanto o esloveno, porque o esloveno é falado por um grupo pequeníssimo de pessoas, apenas na Eslovénia. O português é falado em Portugal, um país pequeno mas que fez grandes viagens. Ao fazê-las, levou a língua daqui, dessa ponta da Península Ibérica para várias partes do mundo. Uma delas é o imenso Brasil. […]

Eu não costumo ouvir os meus discos. Nem antigos, nem novos. Eu não gosto muito de me ouvir, não. Eu gosto de cantar, mas não gosto de me ouvir. Sempre acho que não saiu bem, que as gravações não são boas. Eu podia ter feito discos muito melhores. Podia ter feito, realmente, discos bons. […]

Eu me reconheço muito mais nas minhas fotos de antigamente do que nas de hoje. Nas de hoje eu passo o olho rápido. Não gosto nem de ver. Eu gostava quando eu era jovem. Ainda gosto. Acho bonito, sexy, atraente, interessante. Tudo. […]

Tenho a impressão de que todo o mundo – acho que Sartre dizia isso – quando pensa em si mesmo, como alguém, é um jovem adulto. Entendeu? Ninguém pensa em si mesmo como um bebé, que foi, ou como um velhinho, que vai ficando. Ninguém. Não é a pessoa.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

MPB.pt (V) – MILTON NASCIMENTO (8 de Maio de 2005)

“Bom, não era usual uma família branca pegar um menino negro para criar. Mas pegavam menina. Para ser criada. Eles davam instrução até um certo ano de escola e depois a menina ficava sendo empregada. […]

Eu sendo homem, na cidade ninguém entendeu nada. Porque é que eles tinham me adoptado? Só que na nossa casa nunca teve distinção de nada. Nem de cor. Nós somos três filhos adoptivos. Minha mãe não podia ter filho porque no primeiro que ela teve houve um erro médico que matou a criança e quase matou ela. Aí, ela adoptou três e, de repente, ficou grávida da mais nova. […]

Essa família é a coisa mais linda que Deus me deu. Acho que estou aqui, hoje, por causa deles. […]

Lá, em Três Pontas, em Minas, onde fui criado, tinha preconceito. Não na minha família, mas nos habitantes. […]

Agora, uma coisa mais incrível é que tinha mais preconceito de negro contra negro. Contra mim. Porque eu andava bem vestido, estudava. […]

Sei que meu pai brigou com muita gente por minha causa e minha mãe sofreu muito por minha causa. O pessoal falava: para quê adoptar um crioulinho que mais tarde, quando precisarem dele, não vai querer nem saber de vocês; quando ele crescer vai pegar o rumo e esquecer de vocês. Isso é uma coisa que jogavam na minha mãe. Não foi legal.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

MPB.pt (IV) – MARIA BETHÂNIA (7 de Janeiro de 2002)

“No meu caso, humildemente, utilizo a minha voz para cantar para o meu povo. Para viajar com a história do meu povo, da minha região, fora da minha região. Do meu Brasil. Sou uma cantora popular, esse é o grande orgulho que eu tenho. Mas não sou dona dessa voz. Ela mora em mim. Foi Deus que botou ela aqui e ela mora em mim. Obviamente que, fora de todo o prazer, de todo o delírio, tem também o compromisso, a seriedade de cuidar. Aprender a respirar, a não magoá-la. Cuidar dela como se cuida de um bebé. […]

Caetano fala uma coisa assim: de perto ninguém é muito fácil, ninguém é muito normal. Eu não tenho carácter difícil, sou muito simples. Gosto muito da simplicidade. O que eu detesto é mentira. Enganar as pessoas, para mim, é a pior coisa. […]

Quando nós reunimos no meu camarim, quinze minutos antes de ir para o palco, não precisa rezar uma ave-maria. Nada disso. Nós damos as mãos, fechamos os olhos, nos concentramos e nos desejamos mutuamente força, energia, boa vibração. Normalmente falo. Faço uma pequena prelecção para eles se lembrarem do ofício. Para agradecerem o ofício que têm. Para poderem se expressar com a música, essa coisa sagrada, abstracta, mágica. A música é que rege o mundo. Um dia o maestro pode falar uma coisa, eu posso dizer uma frase do Nietzsche, um verso da Sofia de Mello Breyner. Depende. […]

Quando eu gravei o Roberto Carlos com o Erasmo também me disseram que era uma obra mais popular. Olha, é um privilégio. São dos compositores do Brasil que mais tocam o coração dos brasileiros. Isso me interessa. Sou uma cantora popular. Quero chegar nesse coração. Me comovo. Sou um coração que palpita com as canções dele. Faço parte desse povo. Os críticos é que ficaram magoados. Sentiram-se ultrajados. Sentiram-se desrespeitados. Um artista que eles vivem dizendo que é do bem, como é que grava um cara que eles não gostam? Gravo porque eu sou livre.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

MPB.pt (III) – CHICO BUARQUE (2 de Junho de 2006)

“Não sou uma unanimidade. Eu sou apreciado por muitos brasileiros e detestado por outros. Devo dar constantemente motivos para isso. De cada vez que eu estou a trabalhar, a lançar um disco, a lançar um livro, ganho simpatias e antipatias: amizades desconhecidas, para mim, e inimizades que não sei muito bem de onde vêm. Isso é natural. Um artista não pode pensar em agradar a todos. Principalmente estando em actividade, estando vivo. Depois que morre fica um pouco mais próximo disse que se chamou de unanimidade, que é o cemitério… A unanimidade é o cemitério dos artistas. Essa frase, de qualquer forma, não é generosa. Pelo contrário. Se alguém diz: «aquele sujeito é uma unanimidade», é o primeiro passo para alguém levantar a mão e dizer: «é o cacete! Eu acho ele uma porcaria». Enfim, é óbvio que não existe isso, nem poderia existir. […]

Olha, sinceramente, eu não vivo preocupado com isso, com o facto de ser ou não ser famoso. Eu gosto de viver para trabalhar. Trabalho para fazer as coisas que eu necessito fazer, que eu amo fazer: as músicas, canções. Enquanto estou a fazer essas músicas, me sinto vivo e actuante. Depois que elas estão feitas, é claro que você gosta de ser apreciado. Quando lança um disco ou um romance – o que seja – ganha admiradores e detractores. Você gosta que a sua música seja apreciada. Agora, não pode ficar pensando nisso quando cria – pensando a quem é que você vai agradar – nem depois que cria – ficar pensando: a quem é que eu agradei? Isso só serve para inchar a pessoa. Você não cria mais nada, fica satisfeito consigo próprio. Isso é uma bobagem. O artista tem que pensar em criar, sempre. […]

Há, sem dúvida, menos interesse do que havia pela música mesmo, pela cultura. As pessoas se preocupam menos com isso hoje do que há trinta anos atrás. Mas eu também não sou saudosista. Não sou de ficar reclamando disto e daquilo, não. Às vezes, fico lamentando que um garoto de vinte anos tenha hoje menos interesse em ler Dostoievski do que tinha a minha geração. Eu não era um garoto esquisito, um garoto estranho. Eu convivia com as pessoas da minha idade e gostava disto e daquilo. É uma pena que hoje eles não conheçam, porque isso faria bem a eles. […]

Gosto do mundo em que vivo. Eu vivo a dizer: isto aqui está pior e não sei o quê mas eu quero o mundo como ele é. Se eu pudesse alterar, modificar alguma coisa, eu o faria. Não posso. Eu posso dizer: isso está pior do que estava antes e tal, mas eu gosto da vida e quero viver. Cada vez mais. Não sinto que a idade me pese. Não sinto, na verdade, a idade que eu tenho. Aliás, acho uma injustiça ter sessenta e dois anos. Acho isso uma safadeza.”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006

MPB.pt (II) – TOM ZÉ (3 de Maio de 2006)

“A vida brasileira não me aceita porque eu sou da roça, no Brasil. A coisa da roça no Brasil é que tem a ver com a vida de vanguarda de Nova Iorque. […] É como eu digo naquela canção: «eu estou te explicando / pra te confundir / tou te confundindo / pra te esclarecer». […]

Naquele tempo, criança não era consumidor nem essa autoridade que manda nos pais, hoje. Criança era um investimento da família e, logo que podia, começava a trabalhar na família. Eu estava na loja, com dez anos, abrindo tecido, medindo a fazenda, cortando e vendendo. Aí, tomei contacto com uma coisa que eu não sabia que existia: a língua do povo da roça. A língua que Portugal incubou e deixou incrustada no nordeste durante quatro séculos e que aquele povo cultivava ainda. Aquele povo ficou miserável, analfabeto, desgraçado, mas aquele povo tinha um amor imenso à cultura de seus avós, à cultura moçárabe, e conservou essa cultura na língua. […]

O nordeste vive de três alimentos sem água, desidratados: a carne seca, a farinha de mandioca e o ritmo. Sendo que o ritmo é o que faz o nordestino ficar em pé. […]

Meu pai era um homem pobre. Era um marreteiro. Não sei como se chama aqui: que vende no meio da rua… […] Um vendedor ambulante pobre. Em 1925, ele tirou a sorte grande da lotaria federal. Eram cinco contos de réis. […] Bom, não é que mudou a minha vida: isso fez eu nascer. Se ele não tivesse cinco contos de réis para botar uma loja, ele não podia nem se aproximar da minha mãe, que era filha do coronel Pompílio Santana. Ele só pôde se casar com minha mãe porque passou a ter outra classe social, outra vida. Minha mãe era de uma família estabelecida, Rica, digamos assim. Não tem rico, lá no interior. Tinha remediado. Então, minha mãe era remediada. […]

Um dia, não sei como, chegou um pote que era uma herança de um parente remoto de meu pai. […] Meu pai falou uma coisa: quer saber, vou dividir esse negócio, porque não quero perturbação na minha vida; avisa todo o mundo para que dentro de trinta dias todos os parentes vão na casa de fulano de tal (ele não tinha casa) e eu vou distribuir a botija. […] Então, ele ficou com quatro libras esterlinas. Ia saindo de casa com elas na mão e aí o vendedor de bilhetes, que vinha de Feira de Santana, passou na hora e disse: não quer comprar aqui? Tem um número lindo: 0549. […]

Mas é a verdade. Uma coisa fantástica. Quando meu pai me contou isso, ele já estava para morrer. Eu falei: puta! Mas que história, meu pai. Comprar o bilhete da lotaria com o dinheiro da herança dividida. Caramba!”

MPB.pt, Carlos Vaz Marques, Edições Tinta-da-china, Dezembro 2006