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«Viriato» – Fatias de Cá

Viriato - cartaz julho 2014

9 Julho, 2014 at 9:00 am Deixe o seu comentário

800 anos do mais antigo documento régio escrito em português

Testamento Afonso II

(via)

A propósito dos 800 anos do mais antigo documento régio escrito em português (testamento de D. Afonso II), que hoje se comemoram, recupero um artigo aqui publicado em Junho de 2008:

É um costume reconhecido que, para que as coisas e os feitos se não percam no esquecimento, sejam confiados à fé das escrituras, porque tudo o que piedosamente for feito pelos bons, a não ser que seja passado a escrito, poderá vir a ser destruído pelos vindouros, quando não a cupidez os faça rebeldes às obras de caridade dos padres precedentes *

Memória do Português escrito

A escrita em português tem os seus antecedentes em textos latino-portugueses, prévios inclusivamente à própria fundação da nacionalidade, provenientes do mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto, datados de 1101 e 1125.

As manifestações iniciais do português escrito serão observáveis apenas a partir da segunda metade do século XII, constituindo-se porventura como textos mais antigos: a “Notícia de Fiadores de Paio Soares Romeu” (datado de 1175); e a “anotação de despesas de Pedro Parada” e o “Pacto entre Gomes Pais e Ramiro Pais” – estes não datados, mas presumivelmente escritos também em data aproximada.

Porém, esta classificação não está isenta de discórdia, em particular quanto ao atributo de “escritos em português” de certos textos, havendo quem advogue que o texto mais antigo que poderá merecer tal qualificativo dataria apenas de 1214 (“Notícia de Torto”) – opinião, ainda assim, não consensual, dado poder também considerar-se um documento “híbrido latino-português”.

Por outro lado, também o mais antigo documento régio escrito em português data de 1214, correspondendo ao testamento de D. Afonso II.

No período de 80 anos que decorre entre 1175 e 1255 (data dos mais antigos documentos em português produzidos na chancelaria do rei D. Afonso III), foram identificados cerca de 30 textos escritos em português – “produção primitiva”, constituída por documentos particulares, de carácter notarial –, levantando-se, também neste caso, alguma controvérsia, por um lado quanto ao qualificativo sobre a língua de escrita, por outro lado, quanto à (não) datação de alguns desses documentos.

Esses documentos correspondiam essencialmente a “notícias” (respeitando efectivamente a listas ou inventários), género diplomático que tinha por finalidade o registo de determinados factos, em ordem à preservação da sua memória.

Apenas o rei D. Dinis, a partir de 1279, determinaria o uso generalizado do português na chancelaria régia, de que decorreria um acréscimo relevante da produção documental em português no último decénio do século XIII, que só na centúria seguinte viria a assumir primazia face ao latim.

Não obstante, pode afirmar-se com elevado grau de certeza que, ainda antes do termo do século XII, o português escrito não era exclusivo da produção notarial, sendo já utilizado também a nível literário (arte poética dos trovadores, em folhas soltas, depois reunidas em cancioneiros), a qual se alargaria à prosa a partir de meados do século XIII, surgindo D. Afonso III como introdutor em Portugal do romance de cavalaria.

Numa época em que o digital ganha terreno ao texto impresso em papel, ainda uma pequena curiosidade a propósito do mais antigo texto conhecido escrito em papel em Portugal, datado de 1268, conforme documento em arquivo na Torre do Tombo, em Lisboa.

(Para saber mais, pode consultar o texto de base bibliográfica a este artigo: “O primeiro século do português escrito“, Ana Maria Martins)

* Soeiro, presbítero, Alcobaça, 1190 – Instituto dos Arquivos Nacionais – Torre do Tombo – Mosteiro de Alcobaça, 1ª incorp., Documentos Particulares, M.º 2, Doc. 12 – citado por Saul António Gomes, “Entre memória e história: os primeiros tempos da Abadia de Santa Maria de Alcobaça (1152-1215)”

27 Junho, 2014 at 9:30 am Deixe o seu comentário

Vasco Graça Moura (1942-2014)

vgm-0360

Partiu hoje o poeta, o tradutor, o ensaísta, o cronista, um dos idealizadores (com Mega Ferreira) da “EXPO 98″, o político – que, há cinco anos, tive oportunidade de conhecer pessoalmente -, o intelectual que, lutando pelas suas convicções, defendeu, até ao fim, a língua portuguesa. A minha admiração por isso.

27 Abril, 2014 at 8:40 pm Deixe o seu comentário

Óscares – 2014 – Vencedores

E os vencedores dos Óscares foram:

  • Melhor filme – “12 Anos Escravo” (12 Years a Slave)
  • Melhor realizador –  Alfonso Cuarón (“Gravidade” – Gravity)
  • Melhor actor – Matthew McConaughey (“O Clube de Dallas” – Dallas Buyers Club)
  • Melhor actriz – Cate Blanchett (“Blue Jasmine)
  • Melhor actor secundário – Jared Leto (“O Clube de Dallas” – Dallas Buyers Club)
  • Melhor actriz secundária – Lupita  Nyong’o (“12 Anos Escravo” – 12 Years a Slave)

Consultar a lista completa aqui.

3 Março, 2014 at 8:12 am Deixe o seu comentário

Acordo ortográfico: acabar já com este erro antes que fique muito caro

Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps e muita da “má despesa”.

O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação.

É um acto político falhado na área da política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele.

O acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história, de que a ortografia é um elemento fundamental, a que assistimos todos os dias. E como os nossos governantes, salvo raras excepções, pensam em inglês “economês”, detestam as humanidades, e gostam de modas simples e modernices, estão bem como estão e deixam as coisas andar, sem saber nem convicção.

O mais espantoso é que muitos do que atacaram o “eduquês” imponham este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, e que nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar. Ninguém que saiba escrever em português o quer usar, e é por isso que quase todos os escritores de relevo da língua portuguesa, sejam nacionais, brasileiros, angolanos ou moçambicanos, e muitas das principais personalidades que têm intervenção pública por via da escrita, se recusam a usá-lo. As notas de pé de página de jornais explicando que, “por vontade do autor”, não se aplicam ao seu texto as regras da nova ortografia são um bom atestado de como a escrita “viva” se recusa a usar o acordo. E escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência na negação que devia obrigar a pensar e reconsiderar.

Se voltarmos ao lugar-comum em que se transformou a frase pessoana de que a “minha pátria é a língua portuguesa”, o acordo é um acto antipatriótico, de consequências nulas no melhor dos casos para as boas intenções dos seus proponentes, e de consequências negativas para a nossa cultura antiga, um dos poucos esteios a que nos podemos agarrar no meio desta rasoira do saber, do pensar, do falar e do escrever, que é o nosso quotidiano.

Aos políticos que decidiram implementá-lo à força e “obrigar” tudo e todos ao acordo, de Santana Lopes a Cavaco Silva, de Sócrates a Passos Coelho, e aos linguistas e professores que os assessoraram, comportando-se como tecnocratas – algo que também se pode ter do lado das humanidades, normalmente com uma militância mais agressiva até porque menos “técnicas” são as decisões –, há que lembrar a frase de Weber que sempre defendi como devendo ser inscrita a fogo nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo, morto pelo “ruído” do mundo. O acordo ortográfico nas suas intenções proclamadas de servir para criar uma norma do português escrito, de Brasília a Díli, passando por Lisboa pelo caminho, acabou por se tornar irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo de querer obrigar a escrita desses países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra.

O problema é que sobra para nós, os aplicantes solitários da ortografia do acordo. O acordo, cuja validade na ordem jurídica nacional é contestável, que nenhum outro país aprovou e vários explicitamente rejeitaram, só à força vai poder ser aplicado. A notícia recente de que, nas provas – que acabaram por não se realizar – para os professores contratados, um dos elementos de avaliação era não cometerem erros de ortografia segundo a norma do acordo mostra como ele só pode ser imposto por Diktat, como suprema forma de uma engenharia política que só o facto de não se querer dar o braço a torcer explica não ser mudado.

Porém, começa a haver um outro problema: os custos de insistirem no acordo. A inércia é cara e no caso do acordo todos os dias fica mais cara. A ideia dos seus defensores é criar um facto consumado o mais depressa possível. É esta a única força que joga a favor do acordo, a inércia que mantém as coisas como estão e que implica custos para o nosso défice educativo e cultural.

É o caso dos nossos editores de livros escolares que começaram a produzir manuais conforme o acordo e que naturalmente querem ser ressarcidos dos seus gastos. Mas ainda não é um problema insuperável e, acima de tudo, não é um argumento. Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e muita da “má despesa”. Porque será isso que o acordo será, se não se atalhar de imediato os seus estragos no domínio cultural.

O erro, insisto, foi no domínio da nossa política externa com os países de língua portuguesa, e esse erro é hoje mais do que evidente: os brasileiros, em nome de cuja norma ortográfica foram introduzidas muitas das alterações no português escrito em Portugal, nunca mostraram qualquer entusiasmo com o acordo e hoje encontram todos os pretextos para adiar a sua aplicação. No Brasil já houve vozes suficientes e autorizadas para negar qualquer validade a tal acordo e qualquer utilidade na sua aplicação. Os brasileiros que têm um português dinâmico, capaz de absorver estrangeirismos e gerar neologismos com pernas para andar muito depressa, sabem que o seu “português” será o mais falado, mas têm a sensatez de não o considerar a norma.

Nós aqui seguimos a luta perdida dos franceses para a sua língua falada e escrita, também uma antiga língua imperial hoje em decadência. Querem, usando o poder político e o Estado, manter uma norma rígida para a sua língua para lhe dar uma dimensão mundial que já teve e hoje não tem. Num combate insensato contra o facto de o inglês se ter tornado a língua franca universal, legislam tudo e mais alguma coisa, no limite do autoritarismo cultural, não só para protegerem as suas “indústrias” culturais, como para “defender” o francês do Canadá ao Taiti. Mas como duvido que alguém que queira obter resultados procure no Google por “logiciel”, em vez de “software”, ou “ordinateur”, em vez de “computer”, este é um combate perdido.

Está na hora de acabar com o acordo ortográfico de vez e voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para outros lados onde melhor se defende o português, como por exemplo não deixar fechar cursos sobre cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em livro, incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras. Tenho dificuldade em conceber que quem escreve aspeto – o quê? – em vez de aspecto, em português de Portugal, o possa fazer.

José Pacheco Pereira, Historiador (Público, 18 de Janeiro de 2014 – via ILC Contra o Acordo Ortográfico)

18 Janeiro, 2014 at 5:48 pm 1 comentário

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