Archive for 23 Dezembro, 2004

FERNANDO PESSOA – CARTA A ADOLFO CASAIS MONTEIRO (V)

“Como escrevo em nome desses três?… Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas cousas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.)

Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.

Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo (escreveu o poeta). Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto à «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente – o que é facto – que me foi permitido folhear Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho.

Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja saber, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa.

Abraça-o o camarada que muito o estima admira.

Fernando Pessoa

P. S. (!!!)

14-1-1935”

[1933]

23 Dezembro, 2004 at 6:24 pm 1 comentário

PRÉMIOS "O ACIDENTAL"

Um agradecimento particular ao Rodrigo Moita de Deus pelo Prémio “Serviço público pouco virtual” com que distingue o Memória Virtual, o que sempre constitui um incentivo decisivo!

Foram também distinguidos:
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23 Dezembro, 2004 at 1:55 pm 1 comentário

UM "APLAUSO" AO GOVERNO…

Inglês obrigatório no ensino primário já em 2005

O ensino da língua inglesa deverá ser introduzido no 3º e 4º anos do básico já no próximo ano lectivo, segundo uma proposta que está a ser estudada pelo actual Executivo e que consta também do programa com que o PS se apresentará às eleições legislativas. De acordo com a edição desta quinta-feira do Diário de Notícias, a medida irá mesmo avançar independentemente de quem vencer a 20 de Fevereiro.”

Ora aqui está (finalmente) uma iniciativa louvável do Governo. No actual contexto de globalização, parece-me de facto essencial iniciar a aprendizagem do inglês o mais cedo possível, potenciando inclusivamente a capacidade de assimilação das crianças de 7 / 8 anos.

(via Lua)

[1931]

23 Dezembro, 2004 at 11:17 am 1 comentário

“BLOGOSFERA” EM 2004 (XXIII)

A 6 de Outubro, dá-se o “Caso Marcelo“, com a suspensão dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, devido a alegadas pressões sofridas, também na sequência de críticas do Ministro dos Assuntos Parlamentares ao formato da sua intervenção televisiva, “sem contraditório”.

A blogosfera – como sempre – reagiu de imediato (conforme destacado em artigo de Cristina Bernardo Silva no “Expresso” online – ver em “entrada estendida”):

- Causa Nossa“Factos: a) Um Ministro condena duramente o comentário político dominical de MRS na TVI; b) O visado reserva-se o direito de responder no próximo programa; c) Depois de uma conversa com o proprietário da estação, por inicitiva deste, MSR anuncia a imediata cessação do seu programa; d) MRS não dá explicações para esta súbita decisão, dizendo somente que durante mais de quatro anos sempre pôde conceber e executar “livremente” o seu programa, deixando entender que essa liberdade teria deixado de existir. As perguntas são óbvias: (i) O que é que Paes do Amaral disse a MRS, para forçar este a abandonar o programa, que claramente fazia com inexcedível gozo? (ii) O que é que levou Paes do Amaral a provocar o fim de um programa que evidentemente trazia enormes vantagens à estação? (iii) O que é que o Governo teve a ver com isso?”

- Tugir“Deduz-se, do nevoeiro ainda envolto nesta rescisão de serviços, que há dedo do Governo e que um canal de televisão cedeu ao poder político.”

- Bloguitica (“entrada” nº 1988, a 06.10.04) – “Em poucas linhas, Marcelo Rebelo de Sousa sai da TVI fazendo estragos demolidores. Em primeiro lugar, o comentador dominical da TVI deixa bem claro que Paes do Amaral vergou perante as pressões de Pedro Santana Lopes. O presidente da Media Capital solicitou uma conversa com Marcelo Rebelo de Sousa que não foi certamente para discutir fait-divers. Em segundo lugar, Marcelo Rebelo de Sousa deixa bem claro que sempre comentou livremente na TVI. Infere-se das suas palavras que agora não o poderá continuar a fazer, precisamente devido à interferência de Paes do Amaral e de… Santana Lopes!”

- Barnabé“O que se passou hoje – o afastamento de Marcelo da TVI – foi o caso mais grave de censura em Portugal desde os tempos revolucionários. [...] Um ministro atacou agressivamente um comentador e exigiu que a Alta-autoridade agisse sobre esse comentador. O patrão da Media Capital chamou esse comentador para uma conversa. Esse comentador demitiu-se e já nem sequer faz o seu próximo comentário, onde em princípio responderia ao ataque do ministro.”

- Blogue de Esquerda“Respondendo às perguntas dos jornalistas, há pouco mais de 10 minutos, Santana Lopes não evitou os mais eloquentes sinais de embaraço, quando confrontado com o affaire Marcelo. Ou seja, o que começou por ser um simples tiro no pé, ameaça transformar-se agora numa ameaçadora gangrena política, de consequências imprevisíveis. Pior: em vez de encarar com frontalidade o problema, esclarecendo o que fosse passível de explicação (se é que existe explicação para um cada vez mais evidente caso de pressão política censória), o primeiro-ministro limitou-se, na sua conferência de imprensa, a ensaiar desajeitadíssimas manobras de fuga à responsabilidade que lhe cabe, inteira, nesta barafunda.”

- Abrupto (“Rigorosos e especiosos” – 07.10.04) – “Em qualquer democracia o que ele fez são pressões. São pressões para Marcelo, são pressões para a Media Capital, são pressões para a AACS, são pressões para toda a gente…”

- Blasfémias“Ver ou não ver, gostar ou não gostar dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa é completamente indiferente. O Governo PSD/PP utilizou a pressão política e económica para silenciar alguém que é incómodo ao poder. É grave e muito preocupante.”

- Mar Salgado“O jogo mudou. Marcelo beneficia de efeitos conhecidos de há meio-século em Psicologia Social no campo da mudança de atitudes: o da “credibilidade da fonte ” e o da “confiança da fonte”. [...] Se a isto acrescentarmos o poder da simplificação da mensagem televisiva e a ausência de anti-corpos críticos na massa de indivíduos que julgavam receber um banho de cultura semanal do Prof. Marcelo, compreende-se o pânico do Governo. É humano.”
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23 Dezembro, 2004 at 8:28 am


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