Archive for Janeiro, 2004
LOBO ANTUNES E O BENFICA
Sobre a importância “sociológica” da instituição chamada S. L. Benfica em Portugal, mais uma vez fortemente comprovada durante a semana que agora termina, aqui fica um breve excerto de uma recente entrevista de António Lobo Antunes à revista “Visão”:
“V: Ainda sonha com a guerra?
ALA: [...] Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias.
Quando o Benfica jogava, punhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
V: Não vou pôr isso na entrevista…
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?”
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EQUADOR (V)
.«A Sua Majestade El-Rei D. Carlos
Do governador de S. Tomé e Príncipe e S. João Baptista de Ajudá
Meu Senhor
É com a dor de quem sabe que não Vos traz boas notícias que Vos escrevo esta minha primeira e última carta.
Aqui cheguei, em Março de 1906, por nomeação de Vossa Majestade governador destas ilhas, com a incumbência . se bem a percebi e bem recordo as palavras que me dissesteis em Vila Viçosa . de mostrar ao mundo que não existe, nesta ou noutras colónias portuguesas, a ignomínia do trabalho escravo.
Como sabeis, não pedi, não desejei e não me deu qualquer satisfação tal incumbência e tal cargo. Aceitei-o para servir o meu Rei e o meu país. Contei que Vós e o Vosso Governo saberiam, à distância, avaliar a dificuldade de uma missão que consistia em fazer ver aos agricultores locais que outras formas de produção, que não o trabalho escravo, deveriam ser postas em prática, de modo a que não restassem dúvidas à Inglaterra e ao cônsul por ela para aqui nomeado que assim era ou passara a ser. Durante estes quase dois anos de missão, esforcei-me por fazer ver isto aos nossos colonos, enquanto me esforcei igualmente por fazer acreditar ao cônsul inglês que as coisas estavam a mudar, lentamente embora, mas seguramente, até ao resultado final pretendido. Quer aqui, quer em Lisboa, quer em Londres, sempre soubemos que o teste final ocorreria agora, quando . nos termos da Vossa Lei de Janeiro de 1903 . chegassem ao fim os contratos de cinco anos com os serviçais das roças, e os que o pretendessem pudessem livremente requerer e obter o seu repatriamento. (.)»..
P. S. Os excertos apresentados foram seleccionados procurando (naturalmente) não quebrar . a quem não tenha tido ainda oportunidade de ler o livro . o .suspense. próprio da intriga, plena de .reviravoltas. e com um desfecho .surpreendente..
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"EXPRESSOS DE SONHO"
Na história dos caminhos-de-ferro, alguns percursos atingiram destaque de relevo, entrando na lenda, de que são exemplo, entre outros, o “Expresso do Oriente”, o “Sud-Express” e o “Transiberiano”.
O “Expresso do Oriente” é talvez o mais famoso do mundo, com início em 1883, na sequência da fundação (em 1876), por Nagelmackers, da “Companhia Internacional dos Wagons-Lits”; fazia o percurso entre Paris e Constantinopla, sendo equipado por “carruagens-cama” e “carruagens-restaurante”, luxuosamente equipadas, tendo inspirado vários autores (de que Agatha Christie é um dos exemplos mais famosos) e histórias.
O “Sud-Express”, projecto partilhado entre a SNCF (Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro Franceses) e a Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, teve a sua primeira viagem em 1887 (com partida de Calais), fazendo a ligação entre Paris e Lisboa, uma viagem de pouco mais de 24 horas, que “transportou”, nos primeiros anos do século XX, as ideias culturais e políticas das elites, para, na segunda metade do século (anos 60 e 70) ser o veículo privilegiado de ligação da vasta comunidade lusa em terras de França.
O “Transiberiano” viria a ser o comboio mais extenso do mundo, fazendo a ligação entre Moscovo e Vladivostok, tomando para tal cerca de 10 dias.
P. S. Novos agradecimentos, ao Amnésia, Prima Desblog (mostrando que começa a haver novas “alternativas” no Sapo) e Baixa Pombalina (um “blogue” com um conceito bastante interessante).
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"SPAM"
A propósito de “Spam“…
O facto de se colocar um endereço de e-mail num local público como é um “blogue” não deveria (não poderia?…) ser entendido como um “convite” a uma larga diversidade de entidades para “invadir” esse e-mail com os mais variados anúncios não solicitados, nem, na maior parte dos casos, desejados (desde os “mails nigerianos” oferecendo-nos milhões de dólares para gerirmos, ao aumento do pénis em “não sei quantos centímetros”, culminando – e isto é realmente o “cúmulo”… - nos próprios anúncios de panaceias “anti-spam”!).
O facto de o e-mail se tornar público não deveria ser entendido como forma de permissão para todo o tipo de “intrusão” não desejada.
Não existem leis que nos defendam / protejam? Não se pode “exterminar” estes fornecedores de mails não desejados?
E já nem falo dos preocupantes vírus que, regularmente, se “regeneram”… e voltam a atacar.
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EQUADOR (IV)
.No meio da azáfama daqueles dias, recebeu a certa altura a visita de David, que se fez anunciar protocolarmente. Tinham jantado os três, em casa de Luís Bernardo, dois dias depois de ele ter recomeçado a trabalhar. À vista, fora só um jantar de amigos que celebravam o restabelecimento de um deles: David trouxera até uma garrafa de champagne francês, uma Veuve Clicquot a que Luís Bernardo, por conselho médico, não pôde fazer as devidas honras.
Ficaram os três à conversa até cerca da meia-noite, no terraço, com a mesma desprendida intimidade que sempre tinham tido, desde que as circunstâncias os tinham ali reunido e rapidamente tinham percebido que a amizade entre eles era uma forma de resistência e de ajuda mútua de que nenhum queria prescindir. David fez quase todas as despesas da conversa, falando da Índia e até, coisa rara, do seu governo no Assam. Luís Bernardo estava fascinado e, ao mesmo tempo quase angustiado, com a sua própria capacidade de estar ali a escutá-lo, ao lado de Ann, e de continuar a gostar de o ouvir, de conversar com ele, de ser seu amigo, de manter com ele uma relação de homens com idades e interesses semelhantes, ao mesmo tempo que por dentro ardia no fogo daquilo que mais violentamente pode separar dois homens: a paixão pela mesma mulher..
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"VÉU ISLÂMICO"
Em França, vão agitados os tempos no que respeita ao uso em público de símbolos religiosos, avolumando as tensões latentes entre vastas comunidades emigrantes.
Em Paris, 20 000 mulheres manifestaram-se recentemente, com os cabelos cobertos por véus tricolores, afirmando: “Também somos Franceses!”.
A motivação da proposta de lei sobre a ostentação de sinais religiosos - de iniciativa presidencial, ontem aprovada em Conselho de Ministros, a discutir no Parlamento já em Fevereiro -, atinge, em primeira análise, os 5 milhões de muçulmanos habitando em França: visa banir os sinais e roupas que manifestem “ostensivamente” a confissão religiosa, nas escolas e estabelecimentos públicos; desde logo, os tradicionais véus islâmicos, mas, também, os crucifixos de “grandes dimensões” (qual a medida aceitável?…) e o “kipa” dos judeus e, até, as “próprias barbas religiosas” (!?) - afectando, em teoria, e genericamente, também os católicos e judeus.
Numa época em que as intolerâncias religiosas grassam e são utilizadas como “arma de arremesso” a nível mundial, qual o objectivo de colocar, desta forma tão inútil, “sal nas feridas”? Será “dar razão” e protagonismo aos movimentos mais radicais.
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