DÉFICE ORÇAMENTAL 2003 (II)
O que se passa é uma situação preocupante, comparável a um caso de uma pessoa “gastadora compulsiva”: imagine-se uma pessoa que recebe mensalmente o seu salário, que começa por gastar nas suas despesas essenciais (alimentação, vestuário, habitação); o que acontece – contrariamente ao que se verificou durante muitos anos -, é que, em lugar de “preferir” conservar algumas poupanças para imprevistos futuros, a “febre consumista” dos dias de hoje levou essa pessoa a gastar mais do que os rendimentos que aufere; ao longo dos tempos, tal levou a que tivesse de se endividar, originando compromissos adicionais com o pagamento de juros.
E assim se entrou num “ciclo vicioso”: para “honrar” os compromissos anteriores, foi necessário contrair novas dívidas, com juros adicionais.
Para complicar a situação, essa pessoa que, contava com uns rendimentos extra, acabou por ver que, efectivamente, esses rendimentos acabaram por não se concretizar.
Mas, como se tinha comprometido a procurar equilibrar a relação entre as suas receitas e as suas despesas, teve de “lançar mão” de dois expedientes: por um lado, começar a vender algumas propriedades que tinha herdado de um tio; por outro, dirigiu-se a outro Banco e conseguiu um novo empréstimo
O problema é que esta “solução” não é sustentável no médio prazo; rapidamente ficará sem nenhuma propriedade e, se continuar a gastar sistematicamente mais do que o que recebe, acabará por não conseguir pagar os juros dos empréstimos, até se chegar a um ponto em que nenhum Banco lhe emprestará mais dinheiro, acabando numa situação de “falência”…
Ou seja, concluindo, é imperioso travar esta tendência “compulsiva” de gastar o que não se tem; para tal, é decisivo conseguir aumentar o “rendimento mensal”.
No caso de um país - considerando que será difícil conseguir uma redução significativa das despesas (parte significativa delas “rígidas”, ou seja, “indispensáveis”) -, tal passa essencialmente pela capacidade de maximizar a receita fiscal, não por via do aumento dos impostos, mas através da minimização da fuga ao fisco.
Será esse, talvez, o maior desafio do governo de um país, implicando uma consciencialização de todos de que se trata de uma questão de justiça, equidade e solidariedade social. Mas, para que tal possa ser mais facilmente interiorizado e aceite, é fundamental que os portugueses saibam o que é feito com o dinheiro que pagam de impostos.
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Outubro 28th, 2003 at 19:26
Leo, vc descreveu mais da metade da vida das pessoas que eu conheço. Todo mundo vendendo o almoço pra comprar a janta.
Outubro 29th, 2003 at 15:56
metade das pessoas e (mais de) metade dos países do mundo… quer dizer, aqueles que ainda têm almoço pa vender :-|